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Lara Queiroz

(Des) Prazeres

É a terceira vez essa semana. Toda vez que chego na estação Paraíso, ele entra, senta e abaixa a cabeça; e então vai levantando os olhos, meio assustado, meio curioso, sei lá. Só sei que ele me encara. Nunca sei o que pensar. Ele parece tão sozinho, deve ser um desses caras casados há séculos e que não aguenta mais a mulher, com quem vive há pelo menos uns vinte anos. Deve ter um casal de filhos que moram sozinhos, independentes e que nem se lembram de visitá-lo. Ou pior: são dois sanguessugas que vivem depenando o pobrezinho e de quem ele não consegue se livrar. Os filhos moram com ele até hoje e são dois vagabundos que não querem saber de trabalhar ou fazer qualquer merda nessa vida inútil deles. Ele tem uma expressão triste, parecida com a dos clientes que costumo atender. Acho que eu sairia com esse homem. Tem cara de rico, desses que não sabe nem com o que gastar. Pode ser gay também. Uma vez saí com um cara parecido: casado, rico e infeliz. Naquela semana me dei bem. Que porra! Não aguento mais isso. Odeio que me encarem desse jeito. Parou de olhar. Abaixou a cabeça de novo. Que vontade de…o que será que ele quer, afinal…Ele parece angustiado, sem rumo. Quero sair correndo daqui agora! Não chega nunca essa droga de lugar. Agora eu quero esse homem. Esses olhos perturbados…não deve comer a mulher há meses, deve estar doido por uma boa trepada. Acho que vou falar com ele. Não. Agora ele está me encarando da cabeça aos pés! Parece que está chorando. Não tem aliança. Tirou, certeza. Para se sentir mais livre da mulher chata e entediante que vive com ele há séculos, com quem não trepa há séculos, de repente nem dormem mais na mesma cama. Ou é sozinho mesmo, como eu. Nunca me casei, mas com esse homem eu me casaria. Tenho certeza que ele me faria gozar como nenhum outro jamais me fez. Engraçado, já dei pra tantos caras, mas nem me lembro qual foi a última vez que gozei. O tempo parece que para quando nossos olhos se cruzam, bizarro. Vou olhar de novo. Chega, não dá mais. Esse olhar acaba comigo. É angústia, ansiedade, desespero, preocupação, desejo, talvez…Parece que ele vai descer. Ajeitou o casaco nas mãos e….não. Continua lá. Me encarando. Estou começando a gostar disso. Ele quer me salvar. Sabe quem eu sou, o que faço dessa droga de vida. Ele me quer. Talvez se case comigo e me faça gozar como nenhum outro homem jamais conseguiu. Foi embora. Não me salvou. Não sei o que ele quer. Mas de alguma forma sabe quem sou.

Por Lara Queiroz