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setembro 2020

Tempo estendido

Conto: Tempo Estendido, por Marisa Magnus Smith

A aula terminou mais cedo para Zilá, naquela segunda. Eram 19 horas quando sentiu uma opressão no peito, um mal-estar difuso. Melhor ir pra casa. Desculpem, vou ter de sair mais cedo hoje. Rosana, mais que amiga, se ofereceu: me dá uma carona? O percurso foi silencioso. Zilá estava melhor ao chegar em frente à casa da Rô. 

– Te cuida, Ziza – Rô sorriu ao falar – estou sacando que tu não tá legal, mas não quer falar sobre isso. Amanhã ligo para saber de ti, ok? 

Zilá fez sinal de positivo com a mão: as duas se entendiam sem falar. Só queria chegar em casa. Um banho demorado, uma sopinha quente – e ela estaria novinha.

Meteu-se na cama aquecida. Lençol térmico, invenção dos deuses. O sono não vem, um pico de ansiedade sim. Acha que tudo se relaciona com a aula, justo o melhor momento da semana. Estranha contradição. Daí a pensar em outras estranhezas é um pulo. Ela é o próprio exemplo de paradoxo, a começar pelo nome. Zilá, antiquado para seus 22 anos – anacronia superada com o apelido que a Rô inventou ainda na escola – Ziza. 

Zilá nasceu no Brasíl, filha de pai alemão e diplomata e de mãe caboverdiana e poeta. Tão distantes em origem e atividade, os pais sempre a orgulharam por ousarem ser um só sendo tão diferentes. Bom para ela, disse-lhe um dia Rô, podia usufruir do melhor dois: determinação de um lado, delicadeza de outro. Nem sempre eu consigo, ouviu-se dizendo à mais-que-amiga, mas não era hora de pensar nisso. Precisava dormir. 

Mas e o sono? Refez seus passos: tinha chegado na aula cansada, com frio e com fome. Não entendeu bem o conteúdo, frustração. “Tu és uma neurótica, Zilá, não estás na aula para aprender?” – assoprou o alter ego. “Alter, não vem me dizer que entendeste o tal tempo estendido, que serias capaz de usar isso em um texto. E a tarefa “sete dias na vida de uma personagem”, como vais fazer?” 

Alter, impiedoso, silencia. O caso se resolve com um Rivotril.

Tem uma noite agitada. Cenas com o avô mais querido, morto por enfarte, alternam-se com imagens e sons de relógios – ampulhetas, cucos, carrilhões. Desperta aflita. Corta a tentação de analisar os sonhos: não tem tempo para Dr. Freud no momento. Trataria deles na quarta, com a psi. 

O celular toca, é Rô querendo notícias. Quem sabe podiam jantar no domingo, conversar sobre o tempo estendido e a tarefa dos sete dias? Ok. 

Chega ao hospital animada. Entre um round e outro, o dia passa rápido. Bom sinal, está mesmo melhor. Já em casa, acomoda-se na cama para ler, adormece de mansinho. Leitura interrompida, o livro do mestre Assis, recomendado pela professora na segunda, resta aberto sobre o edredom. 

Antes de o celular despertar, já tinha retomado a leitura. Conceitos e exemplos sobre o tempo na narrativa claros, sente-se mais segura para não escrever bobagem. Voltará à leitura de noite. Analisando os pesadelos, percebe o valor simbólico da Morte e do Tempo. Tão simples: aperto no peito + vovô = Morte. Tempo estendido + pressão dos prazos = Tempo dos relógios. Reforça a suspeita de que a nominalização das coisas, se não resolve problemas, nos dá a impressão de dominá-los. Gostaria de estar em Melk conversando com William de Baskerville sobre o nome da rosa. À noite, sonha com Sean Connery. 

A semana corre, já é quinta, e a dívida de escrita permanece. Duas dívidas, aliás. O sangue alemão povoa a cabeça com ideias funestas. Antes que perca a paciência com a falta de foco, corta os pensamentos automáticos e concentra-se nas atividades da Residência: só voltará a pensar nas tarefas de escrita no fim de semana. À noite, confirma o almoço na mãe, usual nas sextas.

Nada se compara às comidinhas da mãe. “Com uma taça de vinho, melhor ainda, filha”. Ziza agradeceGostaria de ficar, recostada no colo materno, a fazer confidências sabendo que nada a surpreende – tudo já foi intuído. Mas Alter lembra que passa da hora de encarar a escrita. 

Chega cedo em casa. Relê as anotações, analisa os exemplos. Tudo mais claro: tempo estendido tem a ver com tempo da personagem. Agora falta uma ideia para o conto. Talvez um café ajude. 

Quando retorna da cozinha, observa as fotos no mural sobre a mesa do computador. Os pais, o avô. E mais Rô e ela de uniforme e mochila do Pré; Rô e ela numa festa da oitava série; Rô e ela abraçadas na beira da praia, no último verão. Ocorre-lhe uma frase de Teolinda Gersão: “agrada-me o rasgão no mundo conhecido para surpreender além dele uma perspectiva improvável”. Seus olhos buscam na estante o livro da Cíntia que tem evitado abrir, Duas iguais. Lê as primeiras e as últimas páginas. No mural, uma lágrima umedece os olhos da mãe, o pai sorri sem jeito: vai, Ziza, já é tempo, o teu tempo. 

O conto com tempo estendido surge inteiro. Ela deixa fluir, escreve, lê, relê. Ansiedade e alívio, nada a ver com a aula. Ainda não é sábado, mas decide adiantar o prazer, toma um cálice do prosecco preferido das duas. Cai lá fora uma chuva ritmada, perfeita, na noite quase perfeita.

Ainda chove ao amanhecer do sábado. Tanto melhor. Não tem plantão no ambulatório, pode dedicar-se às palavras. Prepara um café completo, degusta-o em tempo estendido. Pensa em ligar para Rosana, não, é melhor aguardar a noite.

Volta ao conto, poucos ajustes, mas nevrálgicos: não se trata de uma narrativa qualquer. Muita delicadeza ao tratar da questão essencial da personagem e do conflito dela decorrente. O dia flui como tem de ser: mexe, avalia, remexe, faz pausas para o conto descansar. Está escuro lá fora quando Zilá dá por encerrado o texto. Degusta seu prosecco com bruscchetas de pasta de salmão. Acordados todos os sentidos, nem cogita adormecer, quer mergulhar na antecipação, agora à flor da pele, do que está por vir. Alter aproveita o momento: estão faltando os sete dias na vida do personagem. Atravessa em vigília a madrugada, só volta a dormir de manhãzinha, já sabendo o que fazer. 

Domingo. Dia D, desembarque, descoberta. Hoje à noite, com Rô, quem sabe o que vai rolar. Começa a digitar: 

“A aula terminou mais cedo para Ziza, naquela segunda”. 

A aula terminou mais cedo para Zilá, naquela segunda. Eram 19 horas quando sentiu uma opressão no peito, um mal-estar difuso. Melhor ir pra casa. Desculpem, vou ter de sair mais cedo hoje. Rosana, mais que amiga, se ofereceu: me dá uma carona? O percurso foi silencioso. Zilá estava melhor ao chegar em frente à casa da Rô. 

– Te cuida, Ziza – Rô sorriu ao falar – estou sacando que tu não tá legal, mas não quer falar sobre isso. Amanhã ligo para saber de ti, ok? 

Zilá fez sinal de positivo com a mão: as duas se entendiam sem falar. Só queria chegar em casa. Um banho demorado, uma sopinha quente – e ela estaria novinha.

Meteu-se na cama aquecida. Lençol térmico, invenção dos deuses. O sono não vem, um pico de ansiedade sim. Acha que tudo se relaciona com a aula, justo o melhor momento da semana. Estranha contradição. Daí a pensar em outras estranhezas é um pulo. Ela é o próprio exemplo de paradoxo, a começar pelo nome. Zilá, antiquado para seus 22 anos – anacronia superada com o apelido que a Rô inventou ainda na escola – Ziza. 

Zilá nasceu no Brasíl, filha de pai alemão e diplomata e de mãe caboverdiana e poeta. Tão distantes em origem e atividade, os pais sempre a orgulharam por ousarem ser um só sendo tão diferentes. Bom para ela, disse-lhe um dia Rô, podia usufruir do melhor dois: determinação de um lado, delicadeza de outro. Nem sempre eu consigo, ouviu-se dizendo à mais-que-amiga, mas não era hora de pensar nisso. Precisava dormir. 

Mas e o sono? Refez seus passos: tinha chegado na aula cansada, com frio e com fome. Não entendeu bem o conteúdo, frustração. “Tu és uma neurótica, Zilá, não estás na aula para aprender?” – assoprou o alter ego. “Alter, não vem me dizer que entendeste o tal tempo estendido, que serias capaz de usar isso em um texto. E a tarefa “sete dias na vida de uma personagem”, como vais fazer?” 

Alter, impiedoso, silencia. O caso se resolve com um Rivotril.

Tem uma noite agitada. Cenas com o avô mais querido, morto por enfarte, alternam-se com imagens e sons de relógios – ampulhetas, cucos, carrilhões. Desperta aflita. Corta a tentação de analisar os sonhos: não tem tempo para Dr. Freud no momento. Trataria deles na quarta, com a psi. 

O celular toca, é Rô querendo notícias. Quem sabe podiam jantar no domingo, conversar sobre o tempo estendido e a tarefa dos sete dias? Ok. 

Chega ao hospital animada. Entre um round e outro, o dia passa rápido. Bom sinal, está mesmo melhor. Já em casa, acomoda-se na cama para ler, adormece de mansinho. Leitura interrompida, o livro do mestre Assis, recomendado pela professora na segunda, resta aberto sobre o edredom. 

Antes de o celular despertar, já tinha retomado a leitura. Conceitos e exemplos sobre o tempo na narrativa claros, sente-se mais segura para não escrever bobagem. Voltará à leitura de noite. Analisando os pesadelos, percebe o valor simbólico da Morte e do Tempo. Tão simples: aperto no peito + vovô = Morte. Tempo estendido + pressão dos prazos = Tempo dos relógios. Reforça a suspeita de que a nominalização das coisas, se não resolve problemas, nos dá a impressão de dominá-los. Gostaria de estar em Melk conversando com William de Baskerville sobre o nome da rosa. À noite, sonha com Sean Connery. 

A semana corre, já é quinta, e a dívida de escrita permanece. Duas dívidas, aliás. O sangue alemão povoa a cabeça com ideias funestas. Antes que perca a paciência com a falta de foco, corta os pensamentos automáticos e concentra-se nas atividades da Residência: só voltará a pensar nas tarefas de escrita no fim de semana. À noite, confirma o almoço na mãe, usual nas sextas.

Nada se compara às comidinhas da mãe. “Com uma taça de vinho, melhor ainda, filha”. Ziza agradeceGostaria de ficar, recostada no colo materno, a fazer confidências sabendo que nada a surpreende – tudo já foi intuído. Mas Alter lembra que passa da hora de encarar a escrita. 

Chega cedo em casa. Relê as anotações, analisa os exemplos. Tudo mais claro: tempo estendido tem a ver com tempo da personagem. Agora falta uma ideia para o conto. Talvez um café ajude. 

Quando retorna da cozinha, observa as fotos no mural sobre a mesa do computador. Os pais, o avô. E mais Rô e ela de uniforme e mochila do Pré; Rô e ela numa festa da oitava série; Rô e ela abraçadas na beira da praia, no último verão. Ocorre-lhe uma frase de Teolinda Gersão: “agrada-me o rasgão no mundo conhecido para surpreender além dele uma perspectiva improvável”. Seus olhos buscam na estante o livro da Cíntia que tem evitado abrir, Duas iguais. Lê as primeiras e as últimas páginas. No mural, uma lágrima umedece os olhos da mãe, o pai sorri sem jeito: vai, Ziza, já é tempo, o teu tempo. 

O conto com tempo estendido surge inteiro. Ela deixa fluir, escreve, lê, relê. Ansiedade e alívio, nada a ver com a aula. Ainda não é sábado, mas decide adiantar o prazer, toma um cálice do prosecco preferido das duas. Cai lá fora uma chuva ritmada, perfeita, na noite quase perfeita.

Ainda chove ao amanhecer do sábado. Tanto melhor. Não tem plantão no ambulatório, pode dedicar-se às palavras. Prepara um café completo, degusta-o em tempo estendido. Pensa em ligar para Rosana, não, é melhor aguardar a noite.

Volta ao conto, poucos ajustes, mas nevrálgicos: não se trata de uma narrativa qualquer. Muita delicadeza ao tratar da questão essencial da personagem e do conflito dela decorrente. O dia flui como tem de ser: mexe, avalia, remexe, faz pausas para o conto descansar. Está escuro lá fora quando Zilá dá por encerrado o texto. Degusta seu prosecco com bruscchetas de pasta de salmão. Acordados todos os sentidos, nem cogita adormecer, quer mergulhar na antecipação, agora à flor da pele, do que está por vir. Alter aproveita o momento: estão faltando os sete dias na vida do personagem. Atravessa em vigília a madrugada, só volta a dormir de manhãzinha, já sabendo o que fazer. 

Domingo. Dia D, desembarque, descoberta. Hoje à noite, com Rô, quem sabe o que vai rolar. Começa a digitar: 

“A aula terminou mais cedo para Ziza, naquela segunda”. 

E os sete dias fluem com a leveza do já conhecido.