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fevereiro 2021

Tema para Tango Rubro

Tema para Tango Rubro, por Mariza Baur

Agora que a dor tinha dado trégua e a cama era veludo puro de macias cores, deixou-se ficar quieta, entre lençóis e travesseiros. Nem os uivos de um cachorro a incomodaram. Logo desconfiou que o ano-novo amanheceu em tons de depressão. Ela e o cão desconhecido partilhando o silêncio da manhã, a garoa a insistir. A vida por um fio. Como os fios de ovos emaranhados na ceia da véspera. Ai, se pudesse lamber as feridas do jeito que lambeu, um por um, os dedos lambuzados de gemas e açúcar. Punhados de fios de ovos descendo pela garganta seca, incapazes de adoçar-lhe o coração. Se ao menos conseguisse ganir como o cachorro solitário e gemesse a saudade até estirpá-la das entranhas. Mas não, a infância estava ali, intacta, com todas as histórias.

As gemas se deitando uma a uma na farinha, se amoldando, as mãos da avó doendo do esforço para transformar clara em neve, um milagre, e o pão-de-ló a derreter na boca, os ovos moles de Aveiro, os pastéis de Santa Clara, os quindins, e ela lia fábulas, não sabia bem porque o livro se abria na página da galinha dos ovos de ouro. Depois saía em disparada para brincar com as crianças da rua, davam-se as mãos e corriam em círculo cantando “a galinha do vizinho bota ovo amarelinho, bota um, bota dois, bota três… bota dez”, o ovo ou a galinha, quem primeiro? A pergunta inevitável, ninguém sabia responder. Devia ter uns oito anos. Com cuidado, quebrou a casca dos ovos pintados pelo pai. Maravilhou-se. Ao invés de clara e gema, foi chocolate derretido que jorrou, quanta galinha, quanto ovo, meu Deus, com essa infância ovóide e galinácea até podia “filosovar” como Clarice. Será o ovo a alma da galinha desajeitada? E o cão, Clarice, vê mesmo o ovo? Como a luz da estrela  morta, o ovo não existe mais, nem a infância, nem a avó, nem o pai, e a galinha do vizinho morreu num mês-de-céu-azul-de-não-sei-quando.

Na noite anterior, mais que ganir, teve vontade de uivar pra lua redonda de espanto ao pipocar dos fogos de artifício, quando o relógio bateu a meia-noite pro ano-novo. Foi só um instante; esqueceu-se de chorar, fazia tempo. Mas o bandoneón chorou. E ela abriu os braços para os braços que a tiraram pra dançar aquele tango. Rubro. Ainda ouviu sua própria voz dizer “felices fiestas”, antes de sentir na boca o sangue do morango, que mordeu com força. Clara e gema lhe escorrendo pelas veias, sem manchar a saia verde-água. Não soube quem doía mais, se era ela ou era o tango.