Despediu-se com um beijo no rosto e um “te ligo” para o pai, que respondeu com um “Deus te abençoe!”
Ao descer do banco do passageiro, percebeu que seu vestido subira até metade da coxa, quase revelando parte de sua calcinha cor-de-rosa. Apressou-se em ajeitar o vestido, alisando os vincos evidentes no linho preto. No processo, a echarpe que usava no pescoço foi capturada pelo vento e voou pela rua de paralelepípedos.
Deu alguns passos, mas não chegou a tempo de evitar que a echarpe caísse dentro de uma poça na calçada. Olhou em volta, não havia nenhum conhecido, pelo menos não pagara mico na frente de ninguém. Abandonou a echarpe ali mesmo na sarjeta, não havia salvação.
Virou-se para trás. O carro do pai havia ido embora. Por um momento, sentiu-se abandonada. Ergueu a cabeça como se tentasse dissipar aquela impressão e começou a andar em direção à fila que se formava em frente à entrada. Enquanto procurava equilibrar-se no salto alto, buscou novamente algum rosto conhecido na multidão, mas só havia estranhos ali. Era a primeira vez que usava botas como aquelas, então voltou a encarar o chão, com medo de prender o salto entre uma pedra e outra.
O local da festa era um casarão com uma porta alta de cor avermelhada, daquelas tantas construções antigas que existiam ao redor da praça de Bom Jesus dos Passos. Devia ter sido construído séculos atrás. Sempre teve fascínio por aquelas casas, espiando-as quando passavam por ali de carro, mas de dia, e nunca perto o bastante para que pudesse entrar em uma delas.
Já na fila, tirou o celular da bolsa e apresentou o QR code ao segurança, que depois de conferi-lo, solicitou um documento. Um pouco atrapalhada com o pedido, abriu a bolsa novamente, desajeitada, as coisas caíram pela calçada, três moedas de um real, um cartão roxo, o crucifixo que normalmente usava como colar, mas que em prol da fantasia, havia escolhido tirar. Recolheu tudo rapidamente, com a claridade da lua que brilhava, cheia. As pessoas a empurravam na fila. Constrangida, não encontrou o documento, mas lembrou que tinha digital no aplicativo do govbr e finalmente apresentou ao segurança, que a liberou indicando a entrada.
Era uma passagem estreita, atravessando a porta vermelha e seguindo pela direita por um corredor escuro, iluminado por velas que perigavam chamuscar seu vestido. Ao final, leds piscavam coloridos, rompendo com a atmosfera sombria que levava até a festa. A música ia se tornando mais alta, à medida em que se aproximava da entrada, e quando cruzou o portal, sentiu-se tonta. O excesso de estrondos e a fumaça enuviavam seus olhos. Não reconhecia as músicas, mas gostava da batida que fez seu sangue pulsar em um ritmo diferente, brutal, curiosamente familiar. Ela se afastou da pista, e foi em direção ao bar. Estava a fim de tomar um shot de tequila. Não costumava beber, a igreja do pai não aprovaria, mas era como se aquela música a conduzisse ao pecado. Pediu logo duas doses e o queimor na garganta fez com que se sentisse mais leve.
No salão, seguia sem reconhecer nenhum de seus colegas de faculdade e se perguntou se teria entrado na festa errada por engano. Abriu o card do convite no celular, aquele que fora enviado no grupo da turma do terceiro período de administração. Tudo certo com o endereço. Talvez tivesse chegado cedo demais, como acontecia na sala de aula, em que era sempre a primeira a chegar.
Aquela era sua primeira festa de halloween. Sua família não aprovava esse tipo de festa, uma comemoração pagã. Mas havia recebido a permissão para ir dessa vez, como um presente pelo aniversário de vinte anos. Se recostou em uma parede, agradecendo pelo pé direito alto, que ajudava a arejar aquele espaço tão lotado. De longe, observou as pessoas fantasiadas. Achou engraçado como personagens de videogame se misturavam com memes e fantasias assustadoras. Sentiu um pouco de vergonha do vestido de linho e tule preto, exageradamente armado, que arranjou em um brechó. Melhor mesmo que não encontrasse ninguém conhecido na festa.
Voltou até o bar, que ficava do outro lado do salão. Reconheceu algumas pessoas, sentadas em mesas, que conhecia de vista da faculdade. Conversavam entre altas risadas, o grupinho do qual sempre quis fazer parte. Tentou pensar em formas de puxar papo, mas desistiu ao passar pela mesa sem ser notada por ninguém.
Pensou que dançar poderia ser uma forma de se entrosar com alguém, fazer um amigo que fosse, nem que a amizade durasse apenas uma noite. A pista era um aglomerado de corpos que ela não estava disposta a desbravar. As pessoas esbarravam umas nas outras, e quando ela tentou se aproximar, uma menina vestida de Elza lhe deu um encontrão, derrubando um drink roxo que melou toda a sua roupa. Voltou ao seu canto junto à parede, com raiva da Elza e da fumaça que ressecava seus olhos e narinas.
Esfregou os olhos fundos, esquecendo-se da camada de delineador preto que havia aplicado ali. Mas tudo bem, naquela altura da noite, eles já deviam estar borrados por si só. Foi seguindo a parede até o fundo do salão. Buscava alguma coisa, talvez um banheiro, não sabia ao certo. Mas a quietude e luminosidade escassa, quanto mais se afastava da pista, lhe agradava bastante.
Ao longe, ainda dava para ouvir a banda que tocava um rock pesado. Ela não conhecia a letra, nem o compositor. Em sua casa, este tipo de música era considerado coisa do demônio. Seguia sentindo uma estranha conexão com a batida, aquela mais grave, que se tornava mais evidente com a distância, fazendo o chão reverberar sobre seus pés.
Passando por uma coluna, encontrou um grupo de colegas tomando comprimidos. Um casal lhe ofereceu, dizendo ser um doce, mas ela recusou, lembrando-se da mãe, que desde sempre a ensinara a não aceitar coisas de estranhos. Ao seu lado esquerdo, alguns casais se beijavam, parecendo que iam se engolir. Ela nunca tinha beijado ninguém. Era preciso encontrar a pessoa certa, dizia o pastor nos cultos de domingo. Pensou em ligar para o pai e pedir que fosse buscá-la, mas achou que seria vergonhoso. Já tinha chegado no carro do papai, não queria ir embora nele também. Chamaria um Uber.
Estava determinada, já colocando o endereço de casa no aplicativo, quando uma figura se aproximou, toda vestida de preto. Ele trazia duas cervejas fechadas e se aproximou dela como se a conhecesse há muito tempo. Lhe ofereceu uma das garrafas, que ela recusou, pelo mesmo motivo que dissera não ao comprimido instantes atrás. Porém, ele insistiu, e como a bebida estava fechada, ela achou que tudo bem. Tomou um gole da cerveja quente que desceu arranhando. O segundo gole fez com que se engasgasse. Tossiu tanto, até seu rosto ficar arroxeado, o estranho dando tapinhas em suas costas.
A mão dele então descansou em suas costas, na base da coluna, e ela sentiu um dèja vú, não com a situação, mas com o toque. Aquela mão parecia conhecer seu corpo. Por esse motivo, não relutou quando ele a empurrou com suavidade, conduzindo-a em direção a uma escadaria de tábuas largas.
Ao descerem os degraus, o som da festa foi minguando até não restar mais nada além de silêncio. A ausência de som lhe causou primeiro receio, depois tranquilidade. Estavam em um porão sem janelas, as paredes escuras amparavam um sofá e uma mesa com quatro cadeiras, estas cobertas por teias de aranha. Do outro lado, uma estante empoeirada cheia de livros.
Ele tirou a garrafa de cerveja vazia das mãos dela, e explicou que no porão a bebida era outra. Ela não entendeu, mas não quis perguntar. Gostava muito do silêncio. Na casa de seus pais sempre tocava música gospel nas alturas. Brevemente, pensou que deveria correr, subir as escadas, mas alguma força maior a fez ficar. Algo naquele desconhecido a atraia, mesmo que não tivessem trocado praticamente nenhuma palavra, nem sequer sabia o nome dele.
Sentiu o celular vibrar. Nem precisava ver para saber que era o pai, preocupado com ela naquela festa satânica e esquisita. Um incômodo profundo ao pensar em sua família fez com que desligasse o aparelho e largasse a bolsa em cima da mesa.
A figura a puxou até o sofá aveludado e bem conservado, apesar de parecer coisa do século passado. Ao sentar-se, o cheiro de bolor impregnou em seu nariz, ela espirrou três vezes e antes da quarta, sentiu-se envolvida pela figura. Nos braços do desconhecido, ela tremeu, mas não sentia medo, e sim aconchego. Ele tocou com a ponta dos dedos os longos cabelos dela, afastando-os do rosto, descobrindo até suas orelhas.
As mãos desceram para o pescoço dela, percorrendo seus ombros e puxando o vestido tomara que caia para baixo. As mãos dele passeavam pelos seus peitos já sem sutiã. Ela se agarrou aos braços peludos e só então reparou na boca dele, dentes tão pontiagudos e desalinhados. Não ligou. Deitou-se no ombro da figura e foi aí que sentiu um arrepio. A língua dele percorreu seu pescoço como se desenhasse um mapa até chegar na nuca. Fez isso algumas vezes e depois lambia fazendo o caminho de volta até chegar na sua orelha. Ela sentia-se anestesiada, em transe.
Quando ele beijou sua boca ela sentiu um gosto metálico, e o que devia lhe causar estranhamento fez com que todo o seu corpo se ascendesse, desperto pela memória de alguma vida passada que ela ainda não era capaz de acessar. Bebeu as gotículas de sangue que brotavam nos lábios dele. Devia estar ficando louca, gostou tanto do beijo.
O vai e vem de suas bocas foi ficando mais selvagem até que ele arrastou os lábios por sua mandíbula e cravou os dentes em seu pescoço. Sugou a ferida como se tomasse um néctar dos deuses. Ela correspondeu na mesma medida, seus dentes menos amolados se cravando na pele dele, o sangue brotando devagar. Ele travou a mordida, puxando-a para mais perto e deixando-a desconcertada com o prazer que sentiu. Ele a sugava com tanta vontade, que ela começou a perder os sentidos.
Em um ir e vir de consciência, emergiram visões de outra noite de lua cheia, num passado que era dela, apesar de muito antigo. Se viu sentada em frente à porta vermelha do casarão, ao lado da figura que era então seu marido. Ele lhe oferecia uma taça cheia até a borda com um líquido escuro e espesso. Brindaram em meio aos sons noturnos, corujas e assovio do vento. O som a fez sentir-se em casa.
Volta ao porão, muito consciente da veia, ou artéria que pulsa em seu pescoço, expulsando o sangue que a mantém presa a essa vida jovem. Tenta mover os braços, mas não consegue, sente que eles estão sendo atados por mil demônios. A temperatura de seu corpo vai caindo, até se igualar a dele.
É erguida pela figura que a carrega desfalecida até a parte mais escura do porão. É acomodada na horizontal sobre um tecido macio como cetim. Ele ajeita a cabeça dela em um pequeno travesseiro e então deita-se ao seu lado. Cobre a mão dela com a sua. Com a mão livre, ele puxa algo pesado e ruidoso pra cima deles, cerrando-os em escuridão.
Ela sente uma paz transcendental. A sensação mais pura de estar em casa.
