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A Uruguaia

Ana não conseguia dormir. Se virava para um lado, para outro. Encolheu como um tatu-bola, daqueles que dava petelecos quando criança na casa da avó. O travesseiro estava desconfortável. Sentiu a garganta seca. Passou a mão, tateando a mesa de cabeceira, à procura da moringa. Nada. Por uns minutos não soube onde estava. Se lembrou de que há alguns meses havia mudado para Porto Alegre. Levantou para pegar água. Deu de bico com o pé na mala. A unha doeu, gritou um palavrão, esqueceu que Lúcia era visita. O voo decolaria cedo para Montevideo. Melhor voltar para a cama. 

De manhã, apressou Lúcia para fechar a mala. Pegou guarda-chuva e capa. Leu na internet que no Uruguai estava chovendo. Odiava sentir-se molhada. 

No aeroporto, com as malas despachadas, Ana ouviu o ronco do estômago. Há dias não comia direito. Sentou-se de frente para o portão de embarque. Enquanto Lucia devorava um pão de queijo, Ana pensava em Ricardo. A imagem do último café coado a pano no apartamento dela, uma semana antes da viagem. O rosto de Ricardo pálido, olhos que a comiam por dentro. Foi embora sem bater a porta. Agora Ana naquele aeroporto. Desejava que fosse Ricardo que estivesse ali, mas não disse nada a Lúcia. Tinha sido a amiga que a havia convidado para a viagem ao Uruguai. 

Entraram no avião. Ana escolheu a janela, deixando vago o assento que dava para o corredor. Como uma criança almeja um doce, esperava Ricardo. Uma vez ele lhe disse que gostava de corredor, precisava de mobilidade, sentir-se livre. Ela não o compreendia, gostava da janela, sentia-se segura. No corredor, Lucia com um caderninho nas mãos. Nele, dicas de restaurantes, bares, lojas de cashemire, roupas de couro. Ela precisava aproveitar a oportunidade. Os preços eram bons. Contou que umas amigas que tinham viajado semanas antes a Montevidéu haviam passado dicas. Valia a pena beber uma Uvita, num bar de nome Inglês.  

Ana fechou os olhos e fingiu dormir.  

Quando o avião pousou, aquela uma hora e dez parecia uma eternidade. Ao chegar no quarto do hotel, Ana largou as malas. Abriu uma fresta da janela, aspirou o ar. Um cheiro de madeira misturado à maresia, algo que remetia à infância, quando morava em Copacabana.  

Sentiu-se pequena frente àquele Rio salgado. Do outro lado da imensidão, estava a Argentina. Ela nunca tinha atravessado para o outro lado. Não havia andado de ferry. Era quase uma linha infinita para ela. Do outro lado do quarto Ana viu Lúcia guardar no cofre um bolo de notas esverdeadas. 

Nas mãos de Ana, o cartão do quarto, número 262, o mesmo do quarto de Pereyra, de Pedro Mairal. Viu-se tomada pelas imagens do livro. Os desejos sexuais de Pereyra por Guerra seriam os mesmos que Ana tinha por Ricardo? 

Não queria ficar mais no quarto. Chamou Lúcia para caminhar na rambla. Dividiram a sombrinha. As gotículas de água respigavam nos cabelos de Ana e molhavam sua capa. A chuva não incomodava mais, algo desconhecido havia tomado conta. Era primavera, e mesmo sem sol, as árvores estavam lindas, cobertas por flores amarelas. Podia-se comer com os olhos. Pararam em uma confeitaria. 

– Que café mais aguado. 

Ana fingiu não ouvir, estava encantada com o balcão de doces.
Comeu uma broa, experimentou uma Mezza Luna, depois repartiram um alfajor com doce de leite, lambendo os dedos. Ana contou para Lúcia sobre o livro que estava lendo. Para sua surpresa, Lucia interessou-se pela história, quis saber detalhes. Ana desatou a contar. Fez Lucia esquecer das lojas. Caminharam para o centro, até chegarem na praça da Independência, com o monumento Artigas. Andaram mais alguns passos, poderiam ter sido os mesmos de Pereyra. Viraram de costas, e lá estava o Palácio Salvio. Passaram pelo Hotel Radisson, aquele cenário de que Guerra nunca havia feito parte, só nas fantasias de Pereyra. Os pés de Ana doíam. Talvez, fosse o chute da mala na noite passada.  

No caminho, pegaram um taxi para o Mercado Agrícola. Ideia de Lúcia que aliviou Ana. No mercado, cheiraram as frutas, o abacaxi não parecia doce, as bergamotas bem menores, o limão amarelo cítrico não se assemelhava em nada com os do Brasil. 

Já anoitecendo, Ana topou ir ao bar de nome inglês. O do caderninho de Lúcia, o mais antigo de Montevideo. No alto, quase encostadas no teto, camisas de futebol de times de diversos lugares do mundo, doadas por clientes. Ela apontou a do Inter e do Grêmio para a amiga, que só conhecia a do São Paulo. Ana, naquele momento, era gaúcha. Nas paredes, abaixo das camisas, estavam emolduradas reportagens e fotos que contavam sobre a história local.  

Ana de pé e braços apoiados no balcão de aço, o mesmo da foto da inauguração. Conservado, quase intacto. Na mesa em frente, junto à bolsa, o celular apitava mensagens de Ricardo. Ana desligou. Brindou com Lúcia a viagem, tomando uma Uvita.

Texto produzido no Grupo de Escrita Criativa da PUC SP

Por Anna Maria Mello