Se aproxima o tempo de copa do mundo, alvoroço costumeiro, aula e trabalho interrompidos pela metade em dias de jogo, a família tirando a carne do congelador e preparando uma farofa com bastante ovo e cebola. A mãe sempre dizia: quanto mais proteína, melhor. O pai fazia a salada, daquelas que levam tudo, alface, tomate, cenoura, pepino, azeitona e mais as conservas de pimentão de que ele tanto gosta. Dona Paola, proprietária da Cantina San Marco fica encarregada do macarrão, que naquele bairro está sempre ao centro da mesa em todas as comemorações.

Os preparativos começam meses antes, quando os vizinhos se juntam para pintar de verde e amarelo o asfalto, pendurar entre os postes as bandeirinhas com nossas cores, dividir as tarefas em grupos menores organizados pelo seu Genaro. Todo mundo contribui com um pouco e seu Gilio vai até a 25 de Março três meses antes para providenciar bandeiras do Brasil de plástico e cornetas que garantem a folia. O preço é melhor quando se compra antecipado.

Pietro ganhou do pai, nos primeiros dias de abril, uma camiseta da seleção e uma bola pesada que o fez sentir como um menino grande. Todos os dias quando chegava do colégio, ele marcava com um x o calendário da cozinha. Depois de almoçar, pegava a bola novinha e ia com ela embaixo do braço de porta em porta chamando os amigos.

No domingo, a mãe preparava uma receita da falecida sogra para receber uma jornalista que sempre aparecia na Mooca para entrevistar os moradores sobre os preparativos da copa. Era dia de Corinthians, e a Bambino Pães tinha recém adquirido um televisor de 75 polegadas. Pretendiam transmitir os jogos, mas a estreia ia ser alvinegra. Pietro assistia a todos os jogos com o pai e com nono Emílio, que desde que chegara ao Brasil havia abraçado o Corinthians como time do coração.

Antes de ir até a Bambino, pai e filho bateram na porta do quarto de nono Emílio. Ele se encontrava na cama, parado como se não os reconhecesse. — Pai, vamos ver o jogo com a gente? É Corínthians e Palmeiras”.
Nono se pôs de pé, com os braços erguidos brandiu:
— Avante Itália, Avante Juventus!

O pai acabou por medicá-lo e saiu cabisbaixo do quarto, levando Pietro pela mão. Atravessaram a rua colorida e sentaram-se em uma mesa com os vizinhos que bebiam uma cerveja. Ofereceram Guaraná para o menino, que acatou a sugestão e dividiu o refrigerante com o pai.

Desde que nono Emílio ficara esquecido, o pai foi parando de beber.

Logo no primeiro tempo do jogo, André fez um gesto obsceno e foi expulso. A mesa inteira se agitou. Desfalcados, como poderiam lavar a honra e ganhar do Palmeiras? O jogo se manteve no zero a zero e o pai seguiu sentado, bebericando guaraná, mal olhando para a televisão. Pietro esperava por um gol, para ver se o pai comemorava, colocando o menino na garupa.

Ao invés do gol, tiveram outra expulsão. Matheuzinho deu um soco num jogador do Palmeiras e qualquer chance de marcar se foi junto com o cartão vermelho. Se o nono estivesse lá, teria gritado sei uni stronzo! e várias outras coisas em italiano que Pietro não entendia, mas sabia que era feio repetir.
— Pelo menos não perdemos dessa vez… — disse o pai, quando saíram da padaria.

Voltaram andando pela rua decorada, o arco na parte de cima já antecipando a cobertura que deveria ser instalada nos próximos dias. Por enquanto, ainda podiam ver a lua, que pintava de branco o céu já escuro.

Em casa, a mãe se despedia da jornalista, que se apresentou como Mayara. Pietro lembrava dela quatro anos atrás, a mulher que apertara suas bochechas, várias vezes. O menino deu um oi por educação, mas logo foi se esgueirando casa adentro até o quarto do nono Emílio.

Pietro ficou do lado dele na cama, esperando que abrisse os olhos e perguntasse o resultado do jogo. Ao abrir, não disse nada. O pai chegou com um punhado de remédios e uma moringa, mandou Pietro dormir, enquanto ajudava nono Emílio a engolir os comprimidos.

Pietro queria ficar, contar para o avô que a copa estava chegando, que a rua já estava ficando bonita, só mais uns meses e veriam o Brasil em campo. O nono então perguntaria sobre a Itália e Pietro responderia mais uma vez, desviando o olhar, que nesse ano a Itália não iria participar.

Autora Anna Maria Mello

Amante da escrita desde que se entende por gente, paulistana, enveredou-se pelos caminhos da história, na Universidade de São Paulo, no início dos anos 90. Desde 2015, se dedica à literatura. Pós-graduada em Escrita Literária, formação de Escritores pelo Instituto Vera Cruz e na PUC-RS foi Aluna da Oficina de Escrita Assis Brasil. É autora de Cabelos vão Cabelos vêm o que é que a Mamãe tem, coautora do livro Da Janela. Participou de diversas antologias. Hoje, com Sofia Mathias ministra curso de Escrita Criativa em São Paulo e é mestranda da PUCSP em Crítica Literária. As letras transformaram sua vida e abriram novos caminhos.

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