Monthly Archives

agosto 2021

A estátua

Em meio a uma nuvem de poeira que vinha do Sul, a silhueta fina da moça cuidava para não se misturar à ventania que carregava as folhas espalhadas pelo chão da praça. Os bancos de mármore, cenário de casais apaixonados, mães observando seus filhos a brincar nos canteiros, agora sem flor. O lago, inspiração de pintores, poetas e sonhadores, hoje é um lamaçal coberto de mato resistente a pisadas de ratos noturnos povoando o vazio. 

O ir e vir de pedestres apressados cruzando caminhos, atrasados para o trabalho, indo para a escola, buscando a sombra das árvores frutíferas que serviam de pano de fundo eram lembranças. 

 Agora, apenas uma mulher, braços entrelaçados, cabeça baixa, coberta pelo pó. Imóvel, como que assistindo ao que foi, um dia. A estátua, objeto de fotos amadoras, embora, em parte, destruída, encarava a moça estática como ela. A destruição de ambas era visível. A estátua em cacos, apenas um olho no rosto e uma mulher ensaiando dar alguns passos em direção ao banco de mármore se entreolhavam. 

A moça de cabelos soltos arriscou pôr um pé adiante do outro. Movimento que fez rolar uma gota do olho da estátua. O vento cedeu lugar a uma garoa fina que impulsionou os passos da mulher de olhos opacos, desviando o encontro do olhar com uma estátua em pedaços, que resistia ao tempo. 

Os passos da moça descalça foram se tornando mais ousados. O caminho até a obra de arte da praça, hoje ferro velho, arrancou dela um sorriso. O passado trouxe consigo lembranças de um tempo de cheiros de frutas, flores de espécies raras, beijos roubados, discursos indecifráveis, mãos que se agarravam ao som de um trio de cordas. A chuva apertou. A moça, na praça, quase alcançava a estátua. Estava muito próxima. Agora eram as duas que sorriam. O ferro esverdeado do corpo da estátua jazia no chão de barro da praça.

A moça, cada vez mais próxima, começou a catar os cacos pelo chão, os seus e os da estátua. Mais uma vez, os olhares se cruzaram. A moça sentou no banco. Com as mãos apoiadas no mármore, guardou os cacos no lenço que trazia no pescoço. Sensação de frio nos pés e na alma. Era hora do acerto de contas. A estátua sabia demais. Mesmo destruída, restava um olho, o mesmo que havia assistido aos seus segredos. Tantos e todos, em 40 dias e noites de confissões em silêncio. A moça se apressou. Precisava acabar com o sofrimento, o seu e o da estátua. Olhou em volta. A poeira agora se juntava à lama do chão. Os pés cobertos de terra buscavam apoio para escalar a estátua. Era o momento certo de prestar contas a si mesma. Não importava o que a estátua pudesse pensar. Ela sabia demais. A moça, com um pedaço de ferro encontrado no chão da praça, alcançou o rosto da estátua, o que restou dele. Num ímpeto, lançou o ferro em direção ao olho da estátua. O barulho de um ferro tocando no outro foi o único som ouvido. Os pedaços de ferro foram se espalhando a seus pés. Não havia mais olho, nem testemunha de um passado que devia ser esquecido. A morte da estátua, aos olhos da moça, que deu as costas, acelerou seus passos, deixando no caminho a arma do crime. Seguiu em paz.

Por Sofia Mathias

(Des) Prazeres

É a terceira vez essa semana. Toda vez que chego na estação Paraíso, ele entra, senta e abaixa a cabeça; e então vai levantando os olhos, meio assustado, meio curioso, sei lá. Só sei que ele me encara. Nunca sei o que pensar. Ele parece tão sozinho, deve ser um desses caras casados há séculos e que não aguenta mais a mulher, com quem vive há pelo menos uns vinte anos. Deve ter um casal de filhos que moram sozinhos, independentes e que nem se lembram de visitá-lo. Ou pior: são dois sanguessugas que vivem depenando o pobrezinho e de quem ele não consegue se livrar. Os filhos moram com ele até hoje e são dois vagabundos que não querem saber de trabalhar ou fazer qualquer merda nessa vida inútil deles. Ele tem uma expressão triste, parecida com a dos clientes que costumo atender. Acho que eu sairia com esse homem. Tem cara de rico, desses que não sabe nem com o que gastar. Pode ser gay também. Uma vez saí com um cara parecido: casado, rico e infeliz. Naquela semana me dei bem. Que porra! Não aguento mais isso. Odeio que me encarem desse jeito. Parou de olhar. Abaixou a cabeça de novo. Que vontade de…o que será que ele quer, afinal…Ele parece angustiado, sem rumo. Quero sair correndo daqui agora! Não chega nunca essa droga de lugar. Agora eu quero esse homem. Esses olhos perturbados…não deve comer a mulher há meses, deve estar doido por uma boa trepada. Acho que vou falar com ele. Não. Agora ele está me encarando da cabeça aos pés! Parece que está chorando. Não tem aliança. Tirou, certeza. Para se sentir mais livre da mulher chata e entediante que vive com ele há séculos, com quem não trepa há séculos, de repente nem dormem mais na mesma cama. Ou é sozinho mesmo, como eu. Nunca me casei, mas com esse homem eu me casaria. Tenho certeza que ele me faria gozar como nenhum outro jamais me fez. Engraçado, já dei pra tantos caras, mas nem me lembro qual foi a última vez que gozei. O tempo parece que para quando nossos olhos se cruzam, bizarro. Vou olhar de novo. Chega, não dá mais. Esse olhar acaba comigo. É angústia, ansiedade, desespero, preocupação, desejo, talvez…Parece que ele vai descer. Ajeitou o casaco nas mãos e….não. Continua lá. Me encarando. Estou começando a gostar disso. Ele quer me salvar. Sabe quem eu sou, o que faço dessa droga de vida. Ele me quer. Talvez se case comigo e me faça gozar como nenhum outro homem jamais conseguiu. Foi embora. Não me salvou. Não sei o que ele quer. Mas de alguma forma sabe quem sou.

Por Lara Queiroz

E Marília?

Era como se Marília sempre tivesse sido mãe. Sua carreira promissora na juventude fora apagada pelos muitos anos em que cuidou dos filhos. Era a mãe modelo. Sempre respeitando, sempre tentando ouvir, deixando que as crianças, e depois adultas, tivessem sempre sua individualidade.

Quando seu pai morreu, se tornou mãe da própria mãe, que tinha sido criada à moda antiga e, como tal, não sabia fazer nada da vida prática sozinha. Marília tinha que levá-la ao mercado, ao médico, à fisioterapia, à natação. Também precisava ter os cuidados emocionais, então a visitava todos os dias para que não se sentisse sozinha. Na casa pequena de Marília, não havia espaço físico para sua mãe.

Era uma espécie de tortura porque a mãe, diferente de Marília, nunca tinha sido uma mãe de verdade e a deixara com feridas profundas e uma sensação de abandono da qual não conseguia se desvencilhar e que, sem querer, passou para as filhas.

A situação piorou quando veio o diagnóstico de Parkinson. Foi preciso encontrar lugar para a mãe de Marília em sua casa e isso aconteceu porque, naquele ano, as duas filhas se mudaram. Uma para casar, a outra para morar sozinha.

Marília deparava-se com uma nova filha. Um corpo de mulher exigindo cuidados de criança. Fraldas, pomadas, papinhas. Tudo durou mais ou menos cinco anos e, nesse período, a filha de Marília que havia saído para morar sozinha e que se chamava Clarice, voltou. Dormia na sala. Era depressiva e bipolar, então Marília precisava cuidar dela também. Duas filhas grandes como se fossem pequenas não é tarefa fácil para uma mulher, mas Marília era a mulher. E fazia tudo não com resignação, mas com uma vontade de ferro.

Depois que a mãe partiu e a Clarice melhorou (encontrou um bom psiquiatra e acertou os remédios), ela decidiu fazer inseminação artificial e ter seu próprio filho ou filha. Marília apoiou, sua outra filha tinha uma mulher, uma companhia, mas Clarice era sozinha. Talvez por seus problemas nunca conseguiu fixar-se em um relacionamento duradouro.

Fizeram o procedimento com todos os medos, dores e alegrias que ele traz e Clarice finalmente engravidou. Uma menina a que chamou Cecília.

Clarice tomava seus remédios, estava bem e cuidava da filha com o maior amor que conseguia sentir. Marília também fazia sua parte, era mais que avó, era segunda mãe.

Conforme Cecília crescia, Clarice começou a ter cada vez mais dificuldades em engolir. Principalmente os remédios, engasgava e vomitava com frequência. Marília se preocupava e exigiu que ela fizesse os exames de Parkinson. Eles não são tão precisos assim, mas era melhor ter uma ideia.

O médico foi taxativo. Sim, havia a presença do Parkinson, e os sintomas começariam a aparecer. Marília e Clarice choraram muito. Clarice tinha presenciado todo o sofrimento da mãe e não queria que ela passasse por tudo aquilo de novo. Cecília tinha cinco anos.

Conversaram muito e tomaram uma decisão. Mãe, não chore por mim, te deixo de presente meu bem mais precioso. Cuide dela e tente fazer ela não se esquecer de mim. Eu te amo com todo o meu coração e quero que você viva feliz.

Clarice pegou todos os comprimidos de Rivotril que tinha em casa e os tomou de uma vez. Deitou-se no colo da mãe com a filha a seu lado. Quando percebeu que Clarice havia parado de respirar, a mãe acariciou seus cabelos, pegou o celular e chamou a ambulância.

Por Mahana Cassiavillani