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Sofia Mathias

Os sons do cafezal

Os sons do cafezal

Lua caminhava pelo cafezal com os pés descalços sobre a terra úmida. Deu dois passos, olhou para trás e viu Raimundo, o capataz da fazenda recolhendo os grãos espalhados pelo chão.

Ao se aproximar, o homem disse: – Bom dia menina Lua. Não devia estar em casa, preparando o almoço? Perdi a noção das horas, respondeu. O cheiro das folhas me faz sonhar. 

 Lua continuou subindo pelas ruas da plantação, ouvindo ao fundo a voz do capataz, que dizia estar cansado de rastelar a terra molhada, onde os grãos se misturavam à areia, formando um caldo azedo, sentido à distância.

 Nada disso mudou o rumo de Lua. A voz do capataz ao longe, e Lua tentando apagar os sons, que resistiam. Restava o eco de Lua, Lua, repetidas vezes, ditas por Raimundo. E a menina apertava os passos para fugir do som, agora, quase imperceptível.

Era hora de voltar. Olhou para o céu. Por que sempre preciso voltar? Para onde, repetiu Lua. Tenho o almoço para cuidar. 

O som foi se aproximando. Raimundo conversava com os pés de café. Lua passou por ele e quando chegou à sede, o som ainda entrava em seus ouvidos. Lua, Lua, hora de almoçar. A voz do capataz a acompanhou. O bate-bate das panelas a distraiu. O capataz entrou na cozinha. Lua tapou os ouvidos, e o mesmo som se espalhava. Lua, Lua, chamava ele, como se não houvesse ninguém para responder.

Por Sofia Mathias

Retrato

Retrato

Helena, Lelê, Lê
Novos sons, novo ser
Exercício de amor
Renascer
Em meio a um caos
Um olhar de esperança
Criança
Que chega
No silêncio das constatações
De que tudo valeu a pena
Sem pena, a passar
O tempo, os fios brancos
Que não escondem a altura do caminho
Também mostram a alegria de repartir
Emoções, filha do filho querido
Saber que a semente brota na terra
Como uma corrente eterna
Atravessa gerações
Deixando marcas de amor
Saudade, cúmplice em ter você,
Helena, minha, nossa Lelê.

Texto inspirado no primeiro aniversário da Lelê.

Por Sofia Mathias

E o vento disse…

O que foi dito tem registro na alma,
Ou se dissipa no ar.
O não dito cria feridas
E abastece o falso ser, ou não ser.
Dito pelo não dito cria imagens à toa, à tona,
Que vestem o que na realidade ainda nem existiu.
Nem sempre se pode dizer o que vem na alma
E o falso dito prevalece.
O que fazer?
Dizer, não dizer?
Dite palavras
Para que elas digam a verdade,
Nada mais que a verdade
E que possam florescer em campos áridos.
Diga o que quiser!
Não escute o eco de suas palavras,
Apenas diga.
O dito está dito,
Volta com o vento,
Ouvinte fiel,
Dono das razões e dos segredos do mundo.

Por Sofia Mathias