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(Des) Prazeres

É a terceira vez essa semana. Toda vez que chego na estação Paraíso, ele entra, senta e abaixa a cabeça; e então vai levantando os olhos, meio assustado, meio curioso, sei lá. Só sei que ele me encara. Nunca sei o que pensar. Ele parece tão sozinho, deve ser um desses caras casados há séculos e que não aguenta mais a mulher, com quem vive há pelo menos uns vinte anos. Deve ter um casal de filhos que moram sozinhos, independentes e que nem se lembram de visitá-lo. Ou pior: são dois sanguessugas que vivem depenando o pobrezinho e de quem ele não consegue se livrar. Os filhos moram com ele até hoje e são dois vagabundos que não querem saber de trabalhar ou fazer qualquer merda nessa vida inútil deles. Ele tem uma expressão triste, parecida com a dos clientes que costumo atender. Acho que eu sairia com esse homem. Tem cara de rico, desses que não sabe nem com o que gastar. Pode ser gay também. Uma vez saí com um cara parecido: casado, rico e infeliz. Naquela semana me dei bem. Que porra! Não aguento mais isso. Odeio que me encarem desse jeito. Parou de olhar. Abaixou a cabeça de novo. Que vontade de…o que será que ele quer, afinal…Ele parece angustiado, sem rumo. Quero sair correndo daqui agora! Não chega nunca essa droga de lugar. Agora eu quero esse homem. Esses olhos perturbados…não deve comer a mulher há meses, deve estar doido por uma boa trepada. Acho que vou falar com ele. Não. Agora ele está me encarando da cabeça aos pés! Parece que está chorando. Não tem aliança. Tirou, certeza. Para se sentir mais livre da mulher chata e entediante que vive com ele há séculos, com quem não trepa há séculos, de repente nem dormem mais na mesma cama. Ou é sozinho mesmo, como eu. Nunca me casei, mas com esse homem eu me casaria. Tenho certeza que ele me faria gozar como nenhum outro jamais me fez. Engraçado, já dei pra tantos caras, mas nem me lembro qual foi a última vez que gozei. O tempo parece que para quando nossos olhos se cruzam, bizarro. Vou olhar de novo. Chega, não dá mais. Esse olhar acaba comigo. É angústia, ansiedade, desespero, preocupação, desejo, talvez…Parece que ele vai descer. Ajeitou o casaco nas mãos e….não. Continua lá. Me encarando. Estou começando a gostar disso. Ele quer me salvar. Sabe quem eu sou, o que faço dessa droga de vida. Ele me quer. Talvez se case comigo e me faça gozar como nenhum outro homem jamais conseguiu. Foi embora. Não me salvou. Não sei o que ele quer. Mas de alguma forma sabe quem sou.

Por Lara Queiroz

E Marília?

Era como se Marília sempre tivesse sido mãe. Sua carreira promissora na juventude fora apagada pelos muitos anos em que cuidou dos filhos. Era a mãe modelo. Sempre respeitando, sempre tentando ouvir, deixando que as crianças, e depois adultas, tivessem sempre sua individualidade.

Quando seu pai morreu, se tornou mãe da própria mãe, que tinha sido criada à moda antiga e, como tal, não sabia fazer nada da vida prática sozinha. Marília tinha que levá-la ao mercado, ao médico, à fisioterapia, à natação. Também precisava ter os cuidados emocionais, então a visitava todos os dias para que não se sentisse sozinha. Na casa pequena de Marília, não havia espaço físico para sua mãe.

Era uma espécie de tortura porque a mãe, diferente de Marília, nunca tinha sido uma mãe de verdade e a deixara com feridas profundas e uma sensação de abandono da qual não conseguia se desvencilhar e que, sem querer, passou para as filhas.

A situação piorou quando veio o diagnóstico de Parkinson. Foi preciso encontrar lugar para a mãe de Marília em sua casa e isso aconteceu porque, naquele ano, as duas filhas se mudaram. Uma para casar, a outra para morar sozinha.

Marília deparava-se com uma nova filha. Um corpo de mulher exigindo cuidados de criança. Fraldas, pomadas, papinhas. Tudo durou mais ou menos cinco anos e, nesse período, a filha de Marília que havia saído para morar sozinha e que se chamava Clarice, voltou. Dormia na sala. Era depressiva e bipolar, então Marília precisava cuidar dela também. Duas filhas grandes como se fossem pequenas não é tarefa fácil para uma mulher, mas Marília era a mulher. E fazia tudo não com resignação, mas com uma vontade de ferro.

Depois que a mãe partiu e a Clarice melhorou (encontrou um bom psiquiatra e acertou os remédios), ela decidiu fazer inseminação artificial e ter seu próprio filho ou filha. Marília apoiou, sua outra filha tinha uma mulher, uma companhia, mas Clarice era sozinha. Talvez por seus problemas nunca conseguiu fixar-se em um relacionamento duradouro.

Fizeram o procedimento com todos os medos, dores e alegrias que ele traz e Clarice finalmente engravidou. Uma menina a que chamou Cecília.

Clarice tomava seus remédios, estava bem e cuidava da filha com o maior amor que conseguia sentir. Marília também fazia sua parte, era mais que avó, era segunda mãe.

Conforme Cecília crescia, Clarice começou a ter cada vez mais dificuldades em engolir. Principalmente os remédios, engasgava e vomitava com frequência. Marília se preocupava e exigiu que ela fizesse os exames de Parkinson. Eles não são tão precisos assim, mas era melhor ter uma ideia.

O médico foi taxativo. Sim, havia a presença do Parkinson, e os sintomas começariam a aparecer. Marília e Clarice choraram muito. Clarice tinha presenciado todo o sofrimento da mãe e não queria que ela passasse por tudo aquilo de novo. Cecília tinha cinco anos.

Conversaram muito e tomaram uma decisão. Mãe, não chore por mim, te deixo de presente meu bem mais precioso. Cuide dela e tente fazer ela não se esquecer de mim. Eu te amo com todo o meu coração e quero que você viva feliz.

Clarice pegou todos os comprimidos de Rivotril que tinha em casa e os tomou de uma vez. Deitou-se no colo da mãe com a filha a seu lado. Quando percebeu que Clarice havia parado de respirar, a mãe acariciou seus cabelos, pegou o celular e chamou a ambulância.

Por Mahana Cassiavillani

Pãe

Márcio, aos cinco anos, já fazia contas de subtração. Certo dia, foi a uma venda, próxima de sua casa. Fez a conta de cabeça. O comerciante percebeu que ele estava correto, por isso ganhou um pacote de balas de presente. Nunca esqueceu esse dia. Anos depois, ao prestar vestibular, escolheu Administração Pública na GV, se destacando como excelente aluno, o que logo ao se formar lhe rendeu um cargo de funcionário público no banco do Brasil. Local onde conheceu sua primeira namorada. Casou-se no mesmo ano que ganhou a promoção para gerente. Com ela, teve três filhos: Laura, Lara e Lucas. No dia em que Lara completou 13 anos, no carro, voltando da festa do boliche, sua esposa sentiu-se mal. O braço esquerdo enrijeceu e a boca entortou para o mesmo lado. Márcio correu para o hospital, mas o infarto foi fulminante. Aos 45 anos, Márcio se viu só no mundo com os seus três filhos. Resolveu que deveria ter um hobby. Passando a pé pela rua do trabalho, viu uma placa de escola de dança. Nela estava escrito: venha fazer uma aula gratuita de salsa. Márcio resolveu testar. Adorava coisas free. Contou os passos. Descobriu que levava jeito para a coisa. Em um dos giros, olho no olho, se apaixonou por Lúcia, a professora de salsa. Depois de alguns dias, passaram a frequentar um bar, após as aulas. Passado um mês, estavam namorando. Em casa, tudo continuava igual. Márcio acumulava o papel de “Pãe”, palavra que se aplica para quem exerce as funções de pai e mãe. Ele continuou levantando duas horas mais cedo para preparar o dejejum: café, leite, pão, ovos mexidos e bacon, que eram sua especialidade. Ao redor da mesa conversava sobre assuntos do dia anterior. Márcio nunca mencionou Lúcia para os filhos em respeito à morte recente de sua esposa. Gostava de ver, que em meio a risadas, lambiam os dedos encharcados de gordura e limpavam na toalha que Márcio fingia não ver para não estragar aquele momento.

Até que em uma manhã, o dia começou diferente. Lara não tocou nos ovos, porque estava ansiosa para sua apresentação na peça de teatro do colégio. Lucas acordou atrasado e só conseguiu tomar o leite. Márcio não viu Laura, lembrou que ela tinha dormido na casa de uma amiga e que lera o bilhete no aparador, que dizia: Vou direto da faculdade para o teatro, encontro vocês lá, guarda lugar bem na frente pra mim. Love u. No caminho para a escola, Lara só falava da peça. Seu papel como atriz principal e como ela desejava que sua mãe estivesse presente naquele momento.

Lucas interrompeu Lara dizendo:

-Eu não quero ir. Vou ficar na casa do Filipe, depois da aula.

– Tá, não enche Lucas. Não quero você zoando na minha peça.

Antes de bater a porta do carro, Lara disse:

-Pai, eu vou direto com a turma do teatro. Não se atrase, please.

Márcio fez com a mão o sinal de positivo e seguiu para o banco, como era de rotina.

Ao chegar, tomou mais um café e seguiu em direção à sua sala. Em frente à mesa já havia uma senhora sentada aguardando.

– Bom dia Sr. Márcio, vim pedir um empréstimo. Você não vai negar, né?

Márcio abriu o computador e percebeu que estava sem sistema. Pediu que ela voltasse mais tarde, mas ela insistiu em aguardar. O dia estava prometendo.

A senhora desatou a contar sobre sua história, que havia separado e o marido não pagava a pensão da filha, e que ela havia assumido todas as despesas da casa. Márcio ouviu a história. Sabia que não poderia se envolver, era parte de sua profissão. Mas a senhora não parava de falar. Márcio pegou o celular. Viu uma mensagem de Lúcia. Abriu debaixo da mesa. Leu. Nela estava escrito: Não esqueça do happy hour, às 19h, hoje, em casa. Não se atrase, tenho uma coisa importante para te contar. Márcio achou melhor não responder, empurrando o celular debaixo de uma pilha de contratos. Pensou na apresentação da filha, às 19h. A senhora à sua frente, parecia determinada a esperar. O telefone interno tocou. A voz do rapaz da recepção dizia ter mais três pessoas aguardando. Ela, irredutível. Márcio digitou a senha no computador. Nada. Pegou o celular. Outra mensagem de Lúcia, dizendo: Vou colocar a música de salsa que gosta para dançarmos juntos. Os amigos vão ver como você está se saindo bem. Sou boa professora né? Inclusive de outras cositas. kkk.

Márcio corou, lembrou das brincadeiras que fazia na cama com Lúcia, de seu corpo de curvas fartas, bunda enrijecida, e de como ela fazia sexo oral bem. Nunca tinha sentido uma boca tão gostosa antes. Precisava responder algo. Achou por bem mandar um Mimes de positivo.

Depois de uma eternidade, a senhora desistiu. Voltaria mais tarde. Márcio respirou. O celular acusava nova mensagem. Dessa vez, de Laura. Perguntava se tinha visto o bilhete e que ele não esquecesse de pegar lugar na frente. Tinha prova na faculdade e chegaria encima do horário. Ele respondeu, enviando um meme de positivo e um coração. O rapaz da recepção avisou que o sistema havia voltado. Chamou o próximo cliente que tinha dúvidas sobre seus investimentos. Fez novas projeções de mercado e mostrou a cesta de opções. O cliente demorou a entender e não saiu satisfeito. Márcio pegou o celular, pensou em convidar Lúcia para o almoço. Mas a fila de atendimento estava grande e o horário restrito. Digitou uma mensagem para Lúcia sobre a peça de teatro de Lara e sua importância. Antes de ele enviar, outra mensagem de Lúcia apitou. Lúcia enviou a foto de uma langerie preta e um dizer: Olha o que te aguarda. Márcio pagou a mensagem. Mandou um meme de carinha com coração. Mal engoliu um sanduiche, entrou mais um cliente. Dessa vez, uma jovem para abrir sua primeira conta. Queria saber as diferenças entre aquele banco e um digital que seu namorado tinha recomendado. Ele olhou suas feições e lembrou-se de Lara. Tinha os cabelos castanhos lisos na altura dos ombros e um largo sorriso que fazia mostrar os últimos dentes. Usaria esse sorriso durante a peça?

Márcio explicou as diferenças como se ela fosse uma de suas filhas. Ofereceu café e água, mas a garota não aceitou. Foi embora na certeza de que iria abrir no digital. Márcio bufou. Uma pontada na cabeça lhe fez lembrar da peça de Lara. Não podia desaponta-la. Tomou um remédio para aliviar. Nova mensagem de Lúcia. Uma foto mostrava duas taças e um balde com espumante e três corações. Logo abaixo uma frase dizendo: só falta você!

Márcio respondeu com um coração.

Já eram quase quatro da tarde, quando a mesma senhora voltou. Queria o crédito de qualquer maneira. Ela abriu uma pasta, mostrou comprovantes, mas Márcio precisava checar o que demandava tempo. Quando convenceu a mulher de que não poderia lhe dar o crédito, já passava das cinco e trinta. Uma nova mensagem no celular, dessa vez, do professor de Lucas. A escola já estava fechando, e ele precisava se apressar. Havia esquecido que era dia de rodízio entre ele e a mãe de Filipe. Márcio ainda teria que levá-los antes do teatro à casa de Felipe, filho da melhor amiga de sua falecida esposa. Pegou o carro e foi em direção a escola sem pensar em Lúcia. Lara mandou foto vestida com o figurino. Mandou beijos. Uma fisgada na perna esquerda lhe fez lembrar da morte de sua mulher. Ela saberia como resolver? Se ela estivesse viva não teria conhecido Lúcia?  Ou teria? Melhor não pensar e acelerar. Buscou os meninos com os portões da escola fechados. A mãe de Filipe ligou, perguntando: Onde vocês estão?

Márcio pediu desculpas pelo atraso e disse que deixaria os meninos na portaria. Sozinho no carro, Márcio recebeu novas mensagens, mas não teve coragem de abri-las. Desligou o celular. Foi em direção à marginal. Pegou uma bala do pacote que estava no porta-luvas. Ligou o rádio em sua estação preferida, abriu a janela para sentir o vento bater em seu rosto. Acelerou. Na rodovia, em direção à praia, atirou o celular pela janela.

Por Anna Maria Mello

A Uruguaia

Ana não conseguia dormir. Se virava para um lado, para outro. Encolheu como um tatu-bola, daqueles que dava petelecos quando criança na casa da avó. O travesseiro estava desconfortável. Sentiu a garganta seca. Passou a mão, tateando a mesa de cabeceira, à procura da moringa. Nada. Por uns minutos não soube onde estava. Se lembrou de que há alguns meses havia mudado para Porto Alegre. Levantou para pegar água. Deu de bico com o pé na mala. A unha doeu, gritou um palavrão, esqueceu que Lúcia era visita. O voo decolaria cedo para Montevideo. Melhor voltar para a cama. 

De manhã, apressou Lúcia para fechar a mala. Pegou guarda-chuva e capa. Leu na internet que no Uruguai estava chovendo. Odiava sentir-se molhada. 

No aeroporto, com as malas despachadas, Ana ouviu o ronco do estômago. Há dias não comia direito. Sentou-se de frente para o portão de embarque. Enquanto Lucia devorava um pão de queijo, Ana pensava em Ricardo. A imagem do último café coado a pano no apartamento dela, uma semana antes da viagem. O rosto de Ricardo pálido, olhos que a comiam por dentro. Foi embora sem bater a porta. Agora Ana naquele aeroporto. Desejava que fosse Ricardo que estivesse ali, mas não disse nada a Lúcia. Tinha sido a amiga que a havia convidado para a viagem ao Uruguai. 

Entraram no avião. Ana escolheu a janela, deixando vago o assento que dava para o corredor. Como uma criança almeja um doce, esperava Ricardo. Uma vez ele lhe disse que gostava de corredor, precisava de mobilidade, sentir-se livre. Ela não o compreendia, gostava da janela, sentia-se segura. No corredor, Lucia com um caderninho nas mãos. Nele, dicas de restaurantes, bares, lojas de cashemire, roupas de couro. Ela precisava aproveitar a oportunidade. Os preços eram bons. Contou que umas amigas que tinham viajado semanas antes a Montevidéu haviam passado dicas. Valia a pena beber uma Uvita, num bar de nome Inglês.  

Ana fechou os olhos e fingiu dormir.  

Quando o avião pousou, aquela uma hora e dez parecia uma eternidade. Ao chegar no quarto do hotel, Ana largou as malas. Abriu uma fresta da janela, aspirou o ar. Um cheiro de madeira misturado à maresia, algo que remetia à infância, quando morava em Copacabana.  

Sentiu-se pequena frente àquele Rio salgado. Do outro lado da imensidão, estava a Argentina. Ela nunca tinha atravessado para o outro lado. Não havia andado de ferry. Era quase uma linha infinita para ela. Do outro lado do quarto Ana viu Lúcia guardar no cofre um bolo de notas esverdeadas. 

Nas mãos de Ana, o cartão do quarto, número 262, o mesmo do quarto de Pereyra, de Pedro Mairal. Viu-se tomada pelas imagens do livro. Os desejos sexuais de Pereyra por Guerra seriam os mesmos que Ana tinha por Ricardo? 

Não queria ficar mais no quarto. Chamou Lúcia para caminhar na rambla. Dividiram a sombrinha. As gotículas de água respigavam nos cabelos de Ana e molhavam sua capa. A chuva não incomodava mais, algo desconhecido havia tomado conta. Era primavera, e mesmo sem sol, as árvores estavam lindas, cobertas por flores amarelas. Podia-se comer com os olhos. Pararam em uma confeitaria. 

– Que café mais aguado. 

Ana fingiu não ouvir, estava encantada com o balcão de doces.
Comeu uma broa, experimentou uma Mezza Luna, depois repartiram um alfajor com doce de leite, lambendo os dedos. Ana contou para Lúcia sobre o livro que estava lendo. Para sua surpresa, Lucia interessou-se pela história, quis saber detalhes. Ana desatou a contar. Fez Lucia esquecer das lojas. Caminharam para o centro, até chegarem na praça da Independência, com o monumento Artigas. Andaram mais alguns passos, poderiam ter sido os mesmos de Pereyra. Viraram de costas, e lá estava o Palácio Salvio. Passaram pelo Hotel Radisson, aquele cenário de que Guerra nunca havia feito parte, só nas fantasias de Pereyra. Os pés de Ana doíam. Talvez, fosse o chute da mala na noite passada.  

No caminho, pegaram um taxi para o Mercado Agrícola. Ideia de Lúcia que aliviou Ana. No mercado, cheiraram as frutas, o abacaxi não parecia doce, as bergamotas bem menores, o limão amarelo cítrico não se assemelhava em nada com os do Brasil. 

Já anoitecendo, Ana topou ir ao bar de nome inglês. O do caderninho de Lúcia, o mais antigo de Montevideo. No alto, quase encostadas no teto, camisas de futebol de times de diversos lugares do mundo, doadas por clientes. Ela apontou a do Inter e do Grêmio para a amiga, que só conhecia a do São Paulo. Ana, naquele momento, era gaúcha. Nas paredes, abaixo das camisas, estavam emolduradas reportagens e fotos que contavam sobre a história local.  

Ana de pé e braços apoiados no balcão de aço, o mesmo da foto da inauguração. Conservado, quase intacto. Na mesa em frente, junto à bolsa, o celular apitava mensagens de Ricardo. Ana desligou. Brindou com Lúcia a viagem, tomando uma Uvita.

Texto produzido no Grupo de Escrita Criativa da PUC SP

Por Anna Maria Mello