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Anna Maria Mello

Fato

Minha mão não é leve
Imóvel sobre o papel
Procura a palavra
que na carne se inscreve

Boca de lábios fugidios
Que no interior soletra
mundo às avessas
contornos sombrios

Na memória recrio
O trajeto de um sujeito
De vívidas manhãs
Tecidas por um fio

Entre encruzilhadas num ato
Sem Drummond sem Pessoa
Me deparo com um fato
A folha em branco

Por Anna Maria Mello

Pãe

Márcio, aos cinco anos, já fazia contas de subtração. Certo dia, foi a uma venda, próxima de sua casa. Fez a conta de cabeça. O comerciante percebeu que ele estava correto, por isso ganhou um pacote de balas de presente. Nunca esqueceu esse dia. Anos depois, ao prestar vestibular, escolheu Administração Pública na GV, se destacando como excelente aluno, o que logo ao se formar lhe rendeu um cargo de funcionário público no banco do Brasil. Local onde conheceu sua primeira namorada. Casou-se no mesmo ano que ganhou a promoção para gerente. Com ela, teve três filhos: Laura, Lara e Lucas. No dia em que Lara completou 13 anos, no carro, voltando da festa do boliche, sua esposa sentiu-se mal. O braço esquerdo enrijeceu e a boca entortou para o mesmo lado. Márcio correu para o hospital, mas o infarto foi fulminante. Aos 45 anos, Márcio se viu só no mundo com os seus três filhos. Resolveu que deveria ter um hobby. Passando a pé pela rua do trabalho, viu uma placa de escola de dança. Nela estava escrito: venha fazer uma aula gratuita de salsa. Márcio resolveu testar. Adorava coisas free. Contou os passos. Descobriu que levava jeito para a coisa. Em um dos giros, olho no olho, se apaixonou por Lúcia, a professora de salsa. Depois de alguns dias, passaram a frequentar um bar, após as aulas. Passado um mês, estavam namorando. Em casa, tudo continuava igual. Márcio acumulava o papel de “Pãe”, palavra que se aplica para quem exerce as funções de pai e mãe. Ele continuou levantando duas horas mais cedo para preparar o dejejum: café, leite, pão, ovos mexidos e bacon, que eram sua especialidade. Ao redor da mesa conversava sobre assuntos do dia anterior. Márcio nunca mencionou Lúcia para os filhos em respeito à morte recente de sua esposa. Gostava de ver, que em meio a risadas, lambiam os dedos encharcados de gordura e limpavam na toalha que Márcio fingia não ver para não estragar aquele momento.

Até que em uma manhã, o dia começou diferente. Lara não tocou nos ovos, porque estava ansiosa para sua apresentação na peça de teatro do colégio. Lucas acordou atrasado e só conseguiu tomar o leite. Márcio não viu Laura, lembrou que ela tinha dormido na casa de uma amiga e que lera o bilhete no aparador, que dizia: Vou direto da faculdade para o teatro, encontro vocês lá, guarda lugar bem na frente pra mim. Love u. No caminho para a escola, Lara só falava da peça. Seu papel como atriz principal e como ela desejava que sua mãe estivesse presente naquele momento.

Lucas interrompeu Lara dizendo:

-Eu não quero ir. Vou ficar na casa do Filipe, depois da aula.

– Tá, não enche Lucas. Não quero você zoando na minha peça.

Antes de bater a porta do carro, Lara disse:

-Pai, eu vou direto com a turma do teatro. Não se atrase, please.

Márcio fez com a mão o sinal de positivo e seguiu para o banco, como era de rotina.

Ao chegar, tomou mais um café e seguiu em direção à sua sala. Em frente à mesa já havia uma senhora sentada aguardando.

– Bom dia Sr. Márcio, vim pedir um empréstimo. Você não vai negar, né?

Márcio abriu o computador e percebeu que estava sem sistema. Pediu que ela voltasse mais tarde, mas ela insistiu em aguardar. O dia estava prometendo.

A senhora desatou a contar sobre sua história, que havia separado e o marido não pagava a pensão da filha, e que ela havia assumido todas as despesas da casa. Márcio ouviu a história. Sabia que não poderia se envolver, era parte de sua profissão. Mas a senhora não parava de falar. Márcio pegou o celular. Viu uma mensagem de Lúcia. Abriu debaixo da mesa. Leu. Nela estava escrito: Não esqueça do happy hour, às 19h, hoje, em casa. Não se atrase, tenho uma coisa importante para te contar. Márcio achou melhor não responder, empurrando o celular debaixo de uma pilha de contratos. Pensou na apresentação da filha, às 19h. A senhora à sua frente, parecia determinada a esperar. O telefone interno tocou. A voz do rapaz da recepção dizia ter mais três pessoas aguardando. Ela, irredutível. Márcio digitou a senha no computador. Nada. Pegou o celular. Outra mensagem de Lúcia, dizendo: Vou colocar a música de salsa que gosta para dançarmos juntos. Os amigos vão ver como você está se saindo bem. Sou boa professora né? Inclusive de outras cositas. kkk.

Márcio corou, lembrou das brincadeiras que fazia na cama com Lúcia, de seu corpo de curvas fartas, bunda enrijecida, e de como ela fazia sexo oral bem. Nunca tinha sentido uma boca tão gostosa antes. Precisava responder algo. Achou por bem mandar um Mimes de positivo.

Depois de uma eternidade, a senhora desistiu. Voltaria mais tarde. Márcio respirou. O celular acusava nova mensagem. Dessa vez, de Laura. Perguntava se tinha visto o bilhete e que ele não esquecesse de pegar lugar na frente. Tinha prova na faculdade e chegaria encima do horário. Ele respondeu, enviando um meme de positivo e um coração. O rapaz da recepção avisou que o sistema havia voltado. Chamou o próximo cliente que tinha dúvidas sobre seus investimentos. Fez novas projeções de mercado e mostrou a cesta de opções. O cliente demorou a entender e não saiu satisfeito. Márcio pegou o celular, pensou em convidar Lúcia para o almoço. Mas a fila de atendimento estava grande e o horário restrito. Digitou uma mensagem para Lúcia sobre a peça de teatro de Lara e sua importância. Antes de ele enviar, outra mensagem de Lúcia apitou. Lúcia enviou a foto de uma langerie preta e um dizer: Olha o que te aguarda. Márcio pagou a mensagem. Mandou um meme de carinha com coração. Mal engoliu um sanduiche, entrou mais um cliente. Dessa vez, uma jovem para abrir sua primeira conta. Queria saber as diferenças entre aquele banco e um digital que seu namorado tinha recomendado. Ele olhou suas feições e lembrou-se de Lara. Tinha os cabelos castanhos lisos na altura dos ombros e um largo sorriso que fazia mostrar os últimos dentes. Usaria esse sorriso durante a peça?

Márcio explicou as diferenças como se ela fosse uma de suas filhas. Ofereceu café e água, mas a garota não aceitou. Foi embora na certeza de que iria abrir no digital. Márcio bufou. Uma pontada na cabeça lhe fez lembrar da peça de Lara. Não podia desaponta-la. Tomou um remédio para aliviar. Nova mensagem de Lúcia. Uma foto mostrava duas taças e um balde com espumante e três corações. Logo abaixo uma frase dizendo: só falta você!

Márcio respondeu com um coração.

Já eram quase quatro da tarde, quando a mesma senhora voltou. Queria o crédito de qualquer maneira. Ela abriu uma pasta, mostrou comprovantes, mas Márcio precisava checar o que demandava tempo. Quando convenceu a mulher de que não poderia lhe dar o crédito, já passava das cinco e trinta. Uma nova mensagem no celular, dessa vez, do professor de Lucas. A escola já estava fechando, e ele precisava se apressar. Havia esquecido que era dia de rodízio entre ele e a mãe de Filipe. Márcio ainda teria que levá-los antes do teatro à casa de Felipe, filho da melhor amiga de sua falecida esposa. Pegou o carro e foi em direção a escola sem pensar em Lúcia. Lara mandou foto vestida com o figurino. Mandou beijos. Uma fisgada na perna esquerda lhe fez lembrar da morte de sua mulher. Ela saberia como resolver? Se ela estivesse viva não teria conhecido Lúcia?  Ou teria? Melhor não pensar e acelerar. Buscou os meninos com os portões da escola fechados. A mãe de Filipe ligou, perguntando: Onde vocês estão?

Márcio pediu desculpas pelo atraso e disse que deixaria os meninos na portaria. Sozinho no carro, Márcio recebeu novas mensagens, mas não teve coragem de abri-las. Desligou o celular. Foi em direção à marginal. Pegou uma bala do pacote que estava no porta-luvas. Ligou o rádio em sua estação preferida, abriu a janela para sentir o vento bater em seu rosto. Acelerou. Na rodovia, em direção à praia, atirou o celular pela janela.

Por Anna Maria Mello

A Uruguaia

Ana não conseguia dormir. Se virava para um lado, para outro. Encolheu como um tatu-bola, daqueles que dava petelecos quando criança na casa da avó. O travesseiro estava desconfortável. Sentiu a garganta seca. Passou a mão, tateando a mesa de cabeceira, à procura da moringa. Nada. Por uns minutos não soube onde estava. Se lembrou de que há alguns meses havia mudado para Porto Alegre. Levantou para pegar água. Deu de bico com o pé na mala. A unha doeu, gritou um palavrão, esqueceu que Lúcia era visita. O voo decolaria cedo para Montevideo. Melhor voltar para a cama. 

De manhã, apressou Lúcia para fechar a mala. Pegou guarda-chuva e capa. Leu na internet que no Uruguai estava chovendo. Odiava sentir-se molhada. 

No aeroporto, com as malas despachadas, Ana ouviu o ronco do estômago. Há dias não comia direito. Sentou-se de frente para o portão de embarque. Enquanto Lucia devorava um pão de queijo, Ana pensava em Ricardo. A imagem do último café coado a pano no apartamento dela, uma semana antes da viagem. O rosto de Ricardo pálido, olhos que a comiam por dentro. Foi embora sem bater a porta. Agora Ana naquele aeroporto. Desejava que fosse Ricardo que estivesse ali, mas não disse nada a Lúcia. Tinha sido a amiga que a havia convidado para a viagem ao Uruguai. 

Entraram no avião. Ana escolheu a janela, deixando vago o assento que dava para o corredor. Como uma criança almeja um doce, esperava Ricardo. Uma vez ele lhe disse que gostava de corredor, precisava de mobilidade, sentir-se livre. Ela não o compreendia, gostava da janela, sentia-se segura. No corredor, Lucia com um caderninho nas mãos. Nele, dicas de restaurantes, bares, lojas de cashemire, roupas de couro. Ela precisava aproveitar a oportunidade. Os preços eram bons. Contou que umas amigas que tinham viajado semanas antes a Montevidéu haviam passado dicas. Valia a pena beber uma Uvita, num bar de nome Inglês.  

Ana fechou os olhos e fingiu dormir.  

Quando o avião pousou, aquela uma hora e dez parecia uma eternidade. Ao chegar no quarto do hotel, Ana largou as malas. Abriu uma fresta da janela, aspirou o ar. Um cheiro de madeira misturado à maresia, algo que remetia à infância, quando morava em Copacabana.  

Sentiu-se pequena frente àquele Rio salgado. Do outro lado da imensidão, estava a Argentina. Ela nunca tinha atravessado para o outro lado. Não havia andado de ferry. Era quase uma linha infinita para ela. Do outro lado do quarto Ana viu Lúcia guardar no cofre um bolo de notas esverdeadas. 

Nas mãos de Ana, o cartão do quarto, número 262, o mesmo do quarto de Pereyra, de Pedro Mairal. Viu-se tomada pelas imagens do livro. Os desejos sexuais de Pereyra por Guerra seriam os mesmos que Ana tinha por Ricardo? 

Não queria ficar mais no quarto. Chamou Lúcia para caminhar na rambla. Dividiram a sombrinha. As gotículas de água respigavam nos cabelos de Ana e molhavam sua capa. A chuva não incomodava mais, algo desconhecido havia tomado conta. Era primavera, e mesmo sem sol, as árvores estavam lindas, cobertas por flores amarelas. Podia-se comer com os olhos. Pararam em uma confeitaria. 

– Que café mais aguado. 

Ana fingiu não ouvir, estava encantada com o balcão de doces.
Comeu uma broa, experimentou uma Mezza Luna, depois repartiram um alfajor com doce de leite, lambendo os dedos. Ana contou para Lúcia sobre o livro que estava lendo. Para sua surpresa, Lucia interessou-se pela história, quis saber detalhes. Ana desatou a contar. Fez Lucia esquecer das lojas. Caminharam para o centro, até chegarem na praça da Independência, com o monumento Artigas. Andaram mais alguns passos, poderiam ter sido os mesmos de Pereyra. Viraram de costas, e lá estava o Palácio Salvio. Passaram pelo Hotel Radisson, aquele cenário de que Guerra nunca havia feito parte, só nas fantasias de Pereyra. Os pés de Ana doíam. Talvez, fosse o chute da mala na noite passada.  

No caminho, pegaram um taxi para o Mercado Agrícola. Ideia de Lúcia que aliviou Ana. No mercado, cheiraram as frutas, o abacaxi não parecia doce, as bergamotas bem menores, o limão amarelo cítrico não se assemelhava em nada com os do Brasil. 

Já anoitecendo, Ana topou ir ao bar de nome inglês. O do caderninho de Lúcia, o mais antigo de Montevideo. No alto, quase encostadas no teto, camisas de futebol de times de diversos lugares do mundo, doadas por clientes. Ela apontou a do Inter e do Grêmio para a amiga, que só conhecia a do São Paulo. Ana, naquele momento, era gaúcha. Nas paredes, abaixo das camisas, estavam emolduradas reportagens e fotos que contavam sobre a história local.  

Ana de pé e braços apoiados no balcão de aço, o mesmo da foto da inauguração. Conservado, quase intacto. Na mesa em frente, junto à bolsa, o celular apitava mensagens de Ricardo. Ana desligou. Brindou com Lúcia a viagem, tomando uma Uvita.

Texto produzido no Grupo de Escrita Criativa da PUC SP

Por Anna Maria Mello

A lata

A lata - Anna Maria Mello

Uma lata poderia ser muitas coisas. Nas primeiras semanas que cheguei a Porto Alegre, os dias eram iluminados. O sol parecia entrar pela cabeça, descendo pelo corpo, passando por todos os órgãos até chegar em cada célula. A bola alaranjada que sumia no Guaíba nos finais de tarde me aquecia. Era tudo novidade e isso me bastava. Faltava um lugar para me instalar. Na busca pela internet, encontrei um apartamento de frente para o rio. Depois de arrastar a mala pelos degraus de uma estreita escada, me jogar na cama com o corpo grudento, roupas molhadas de suor, abri a geladeira e constatei que precisava ir ao supermercado. Dentre as ofertas da prateleira abarrotada de mercadorias, decidi por um bom vinho, uma caixa de massa e duas latas de molho de tomate. Comi, lambendo os dedos. O que sobrou, guardei para o dia seguinte.

Durante a madrugada, acordei com ruídos vindos de uma avenida próxima. Breques de ônibus que precisavam de pastilhas novas, pessoas que gritavam saindo de uma balada, pelotão de exército comandado por toques de apito. Sem conseguir pregar o olho nas noites seguintes, bastaram alguns dias para que me mudasse. De lá, levei as roupas e uma lata de molho de tomate.

Na nova moradia, longe do Guaíba, o sol descia em meio aos prédios. Nas manhãs, ouvia o cantar de pássaros. O apartamento tinha móveis mais confortáveis, escolhidos a dedo pela proprietária. Mas nada tinha minha cara.

As noites eram mais difíceis. Pensava nas coisas que havia deixado para trás, em São Paulo. As filhas, os cachorros, os amigos. Deitada de barriga para cima, demorava a pegar no sono.  

Em algumas madrugadas, acordava molhada, com os olhos fixos na parede bege. Não reconhecia nenhum objeto. Por alguns minutos, não sabia onde estava.

Os dias da semana eram preenchidos por estudos e trabalho, livros que me levavam a lugares longínquos e, por vezes, inóspitos.

Em uma sexta-feira de maio, quando recebi a visita de minha filha, o sol já não brilhava tão forte, e as nuvens se agitavam formando tempestades. Júlia chegou animada para desbravar os pampas. Assim que entrou, foi logo dizendo:

– Nem parece sua casa, aqui combina mais comigo.

Ela tinha razão, mas não havia me dado conta. Estava na hora do almoço e resolvi fazer a macarronada, aquela tradicional da “mama”. Sabia que, assim, ela se sentiria em casa. De barriga cheia, nos atiramos na cama e juntas, tiramos um cochilo. Ao acordar, do quarto, entre as frestas de madeira que dividiam o único ambiente, pude ver a sombra de Julia na cozinha. Estava com algo nas mãos. 

– Mãe, vem cá. Que tal pintarmos essa lata?

Era uma boa ideia, faríamos algo juntas. Nessa hora, a panela já estava com água fervente. Mergulhei a lata. Encostei de relance a mão na tampa da panela. Senti arder. Olhei o mindinho; estava vermelho, mas não disse nada a Julia. 

Saímos para comprar tinta e outros apetrechos. No caminho, Julia contou de seu novo emprego na empresa de cosméticos, na área de Marketing. Estava animada, e eu feliz por vê-la tão bem.

De volta ao apartamento, começamos a pintar a lata. Meus dedos melecados de verde cobriam a bolha do mindinho. O cheiro de tinta tomou conta da sala. Abrimos as janelas e resolvemos sair para comer. No caminho, passamos por uma loja de artesanato. Julia olhou para um guardanapo estampado com cactos.

– Vai combinar com a lata.

– Sim, vai cobrir as imperfeiçoes da tinta. Vamos levá-lo.

Pegamos o pacote de guardanapos, um verniz, e voltamos  para casa. Dessa vez, foi Júlia que quis aplicá-lo. Observei como deslizava os dedos sobre as nervuras, seus dedos preenchendo os espaços vazios. Deixou em cima da pia para secar. Voltou depois de um tempo para reaplicar outra camada, enquanto eu ajudava com as malas. Era hora de sua partida. 

Durante a noite, o cheiro não incomodou. Mesmo assim, abri a janela para circular o ar. No celular, mensagem de Julia, dizendo ter chegado bem. Encostei no travesseiro e dormi.

No dia seguinte, a lata já estava seca. Posicionei-a na escrivaninha ao lado de uma pilha de livros. Peguei o lápis com o qual estava escrevendo e coloquei dentro. Admirei-a por alguns segundos. Como havia sido bom o final de semana.

O semestre passou rápido. Ganhei outros lápis, borrachas e canetas. 

Resolvi fazer uma macarronada. Dessa vez, seria para os amigos. Arrumei a casa. Em cima da escrivaninha, bem do lado das pilhas de livros, ajeitei a lata.

Texto produzido na Oficina de Escrita de Não-Ficção do Prof. Dr. Fred Linardi

Por Anna Maria Mello

A onda

A onda - Anna Maria Mello

Com os olhos fixos no mar, estava sentada de pernas esparramadas e pés enterrados na areia. Entre as mãos, um pequeno balde plástico furta-cor. No pescoço, um reluzente crucifixo, presente de sua mãe na primeira eucaristia. Havia completado 11 anos e sabia falar na internet sem gaguejar. Tinha ideias de adulto. 

Se levantou. Chacoalhou os pés, jogou o pequeno balde no chão e foi em direção à mãe.

– Natalia, quero fazer uma tattoo
– Quer o quê?
– Fazer uma tattoo – repetiu revirando os olhos.
– Isso é coisa do demônio.

 Estava de boca aberta. Resolveu ganhar tempo.

– O que você quer tatuar? 
– Uma onda.
– Se você fizer, vai doer.

Carol estava decidida. Bateu o pé no chão e com o dedo apontou o local.

– As crianças de hoje querem cada coisa – disse a mãe em voz alta. Não sabia nem o que era tatuagem. Pegava jacaré nas ondas com uma prancha de isopor.
– Você sabia que tatuagem dói?
– Dói nada.

Natália desistiu, pegou seu livro na cadeira ao lado. Mergulhou nas páginas afastou-se da filha.

Carol deu as costas para mãe e foi em direção ao mar. Colocou os pés na água que batia em seu tornozelo. Andou alguns metros. A água respingou em sua barriga e peito. Veio uma onda que a tragou.

Quando Carol acordou, estava na areia, nos braços de Pedro, o vizinho da casa da frente. A seu lado, uma prancha escrita “New Wave”.

A mãe respirava ofegante. 

 – Que susto. Falei que não era para ir no fundo.

Carol tinha os olhos em Pedro. Não havia percebido o quanto ele era musculoso.  Ele perguntou se ela estava melhor, se podia levá-la para casa. Ela balançou a cabeça de modo afirmativo.

À noite, já na cama com sua mãe, voltou a pensar na tatuagem. Agora faria duas. Olhou para seu braço esquerdo, imaginando como ficaria o nome de Pedro tatuado ali. 

Texto produzido na Oficina de Escrita Criativa do Prof. Dr. Antônio de Assis Brasil

Por Anna Maria Mello