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Contos

A estátua

Em meio a uma nuvem de poeira que vinha do Sul, a silhueta fina da moça cuidava para não se misturar à ventania que carregava as folhas espalhadas pelo chão da praça. Os bancos de mármore, cenário de casais apaixonados, mães observando seus filhos a brincar nos canteiros, agora sem flor. O lago, inspiração de pintores, poetas e sonhadores, hoje é um lamaçal coberto de mato resistente a pisadas de ratos noturnos povoando o vazio. 

O ir e vir de pedestres apressados cruzando caminhos, atrasados para o trabalho, indo para a escola, buscando a sombra das árvores frutíferas que serviam de pano de fundo eram lembranças. 

 Agora, apenas uma mulher, braços entrelaçados, cabeça baixa, coberta pelo pó. Imóvel, como que assistindo ao que foi, um dia. A estátua, objeto de fotos amadoras, embora, em parte, destruída, encarava a moça estática como ela. A destruição de ambas era visível. A estátua em cacos, apenas um olho no rosto e uma mulher ensaiando dar alguns passos em direção ao banco de mármore se entreolhavam. 

A moça de cabelos soltos arriscou pôr um pé adiante do outro. Movimento que fez rolar uma gota do olho da estátua. O vento cedeu lugar a uma garoa fina que impulsionou os passos da mulher de olhos opacos, desviando o encontro do olhar com uma estátua em pedaços, que resistia ao tempo. 

Os passos da moça descalça foram se tornando mais ousados. O caminho até a obra de arte da praça, hoje ferro velho, arrancou dela um sorriso. O passado trouxe consigo lembranças de um tempo de cheiros de frutas, flores de espécies raras, beijos roubados, discursos indecifráveis, mãos que se agarravam ao som de um trio de cordas. A chuva apertou. A moça, na praça, quase alcançava a estátua. Estava muito próxima. Agora eram as duas que sorriam. O ferro esverdeado do corpo da estátua jazia no chão de barro da praça.

A moça, cada vez mais próxima, começou a catar os cacos pelo chão, os seus e os da estátua. Mais uma vez, os olhares se cruzaram. A moça sentou no banco. Com as mãos apoiadas no mármore, guardou os cacos no lenço que trazia no pescoço. Sensação de frio nos pés e na alma. Era hora do acerto de contas. A estátua sabia demais. Mesmo destruída, restava um olho, o mesmo que havia assistido aos seus segredos. Tantos e todos, em 40 dias e noites de confissões em silêncio. A moça se apressou. Precisava acabar com o sofrimento, o seu e o da estátua. Olhou em volta. A poeira agora se juntava à lama do chão. Os pés cobertos de terra buscavam apoio para escalar a estátua. Era o momento certo de prestar contas a si mesma. Não importava o que a estátua pudesse pensar. Ela sabia demais. A moça, com um pedaço de ferro encontrado no chão da praça, alcançou o rosto da estátua, o que restou dele. Num ímpeto, lançou o ferro em direção ao olho da estátua. O barulho de um ferro tocando no outro foi o único som ouvido. Os pedaços de ferro foram se espalhando a seus pés. Não havia mais olho, nem testemunha de um passado que devia ser esquecido. A morte da estátua, aos olhos da moça, que deu as costas, acelerou seus passos, deixando no caminho a arma do crime. Seguiu em paz.

Por Sofia Mathias

Os sons do cafezal

Os sons do cafezal

Lua caminhava pelo cafezal com os pés descalços sobre a terra úmida. Deu dois passos, olhou para trás e viu Raimundo, o capataz da fazenda recolhendo os grãos espalhados pelo chão.

Ao se aproximar, o homem disse: – Bom dia menina Lua. Não devia estar em casa, preparando o almoço? Perdi a noção das horas, respondeu. O cheiro das folhas me faz sonhar. 

 Lua continuou subindo pelas ruas da plantação, ouvindo ao fundo a voz do capataz, que dizia estar cansado de rastelar a terra molhada, onde os grãos se misturavam à areia, formando um caldo azedo, sentido à distância.

 Nada disso mudou o rumo de Lua. A voz do capataz ao longe, e Lua tentando apagar os sons, que resistiam. Restava o eco de Lua, Lua, repetidas vezes, ditas por Raimundo. E a menina apertava os passos para fugir do som, agora, quase imperceptível.

Era hora de voltar. Olhou para o céu. Por que sempre preciso voltar? Para onde, repetiu Lua. Tenho o almoço para cuidar. 

O som foi se aproximando. Raimundo conversava com os pés de café. Lua passou por ele e quando chegou à sede, o som ainda entrava em seus ouvidos. Lua, Lua, hora de almoçar. A voz do capataz a acompanhou. O bate-bate das panelas a distraiu. O capataz entrou na cozinha. Lua tapou os ouvidos, e o mesmo som se espalhava. Lua, Lua, chamava ele, como se não houvesse ninguém para responder.

Por Sofia Mathias

Tema para Tango Rubro

Tema para Tango Rubro, por Mariza Baur

Agora que a dor tinha dado trégua e a cama era veludo puro de macias cores, deixou-se ficar quieta, entre lençóis e travesseiros. Nem os uivos de um cachorro a incomodaram. Logo desconfiou que o ano-novo amanheceu em tons de depressão. Ela e o cão desconhecido partilhando o silêncio da manhã, a garoa a insistir. A vida por um fio. Como os fios de ovos emaranhados na ceia da véspera. Ai, se pudesse lamber as feridas do jeito que lambeu, um por um, os dedos lambuzados de gemas e açúcar. Punhados de fios de ovos descendo pela garganta seca, incapazes de adoçar-lhe o coração. Se ao menos conseguisse ganir como o cachorro solitário e gemesse a saudade até estirpá-la das entranhas. Mas não, a infância estava ali, intacta, com todas as histórias.

As gemas se deitando uma a uma na farinha, se amoldando, as mãos da avó doendo do esforço para transformar clara em neve, um milagre, e o pão-de-ló a derreter na boca, os ovos moles de Aveiro, os pastéis de Santa Clara, os quindins, e ela lia fábulas, não sabia bem porque o livro se abria na página da galinha dos ovos de ouro. Depois saía em disparada para brincar com as crianças da rua, davam-se as mãos e corriam em círculo cantando “a galinha do vizinho bota ovo amarelinho, bota um, bota dois, bota três… bota dez”, o ovo ou a galinha, quem primeiro? A pergunta inevitável, ninguém sabia responder. Devia ter uns oito anos. Com cuidado, quebrou a casca dos ovos pintados pelo pai. Maravilhou-se. Ao invés de clara e gema, foi chocolate derretido que jorrou, quanta galinha, quanto ovo, meu Deus, com essa infância ovóide e galinácea até podia “filosovar” como Clarice. Será o ovo a alma da galinha desajeitada? E o cão, Clarice, vê mesmo o ovo? Como a luz da estrela  morta, o ovo não existe mais, nem a infância, nem a avó, nem o pai, e a galinha do vizinho morreu num mês-de-céu-azul-de-não-sei-quando.

Na noite anterior, mais que ganir, teve vontade de uivar pra lua redonda de espanto ao pipocar dos fogos de artifício, quando o relógio bateu a meia-noite pro ano-novo. Foi só um instante; esqueceu-se de chorar, fazia tempo. Mas o bandoneón chorou. E ela abriu os braços para os braços que a tiraram pra dançar aquele tango. Rubro. Ainda ouviu sua própria voz dizer “felices fiestas”, antes de sentir na boca o sangue do morango, que mordeu com força. Clara e gema lhe escorrendo pelas veias, sem manchar a saia verde-água. Não soube quem doía mais, se era ela ou era o tango.  

Tempo estendido

Conto: Tempo Estendido, por Marisa Magnus Smith

A aula terminou mais cedo para Zilá, naquela segunda. Eram 19 horas quando sentiu uma opressão no peito, um mal-estar difuso. Melhor ir pra casa. Desculpem, vou ter de sair mais cedo hoje. Rosana, mais que amiga, se ofereceu: me dá uma carona? O percurso foi silencioso. Zilá estava melhor ao chegar em frente à casa da Rô. 

– Te cuida, Ziza – Rô sorriu ao falar – estou sacando que tu não tá legal, mas não quer falar sobre isso. Amanhã ligo para saber de ti, ok? 

Zilá fez sinal de positivo com a mão: as duas se entendiam sem falar. Só queria chegar em casa. Um banho demorado, uma sopinha quente – e ela estaria novinha.

Meteu-se na cama aquecida. Lençol térmico, invenção dos deuses. O sono não vem, um pico de ansiedade sim. Acha que tudo se relaciona com a aula, justo o melhor momento da semana. Estranha contradição. Daí a pensar em outras estranhezas é um pulo. Ela é o próprio exemplo de paradoxo, a começar pelo nome. Zilá, antiquado para seus 22 anos – anacronia superada com o apelido que a Rô inventou ainda na escola – Ziza. 

Zilá nasceu no Brasíl, filha de pai alemão e diplomata e de mãe caboverdiana e poeta. Tão distantes em origem e atividade, os pais sempre a orgulharam por ousarem ser um só sendo tão diferentes. Bom para ela, disse-lhe um dia Rô, podia usufruir do melhor dois: determinação de um lado, delicadeza de outro. Nem sempre eu consigo, ouviu-se dizendo à mais-que-amiga, mas não era hora de pensar nisso. Precisava dormir. 

Mas e o sono? Refez seus passos: tinha chegado na aula cansada, com frio e com fome. Não entendeu bem o conteúdo, frustração. “Tu és uma neurótica, Zilá, não estás na aula para aprender?” – assoprou o alter ego. “Alter, não vem me dizer que entendeste o tal tempo estendido, que serias capaz de usar isso em um texto. E a tarefa “sete dias na vida de uma personagem”, como vais fazer?” 

Alter, impiedoso, silencia. O caso se resolve com um Rivotril.

Tem uma noite agitada. Cenas com o avô mais querido, morto por enfarte, alternam-se com imagens e sons de relógios – ampulhetas, cucos, carrilhões. Desperta aflita. Corta a tentação de analisar os sonhos: não tem tempo para Dr. Freud no momento. Trataria deles na quarta, com a psi. 

O celular toca, é Rô querendo notícias. Quem sabe podiam jantar no domingo, conversar sobre o tempo estendido e a tarefa dos sete dias? Ok. 

Chega ao hospital animada. Entre um round e outro, o dia passa rápido. Bom sinal, está mesmo melhor. Já em casa, acomoda-se na cama para ler, adormece de mansinho. Leitura interrompida, o livro do mestre Assis, recomendado pela professora na segunda, resta aberto sobre o edredom. 

Antes de o celular despertar, já tinha retomado a leitura. Conceitos e exemplos sobre o tempo na narrativa claros, sente-se mais segura para não escrever bobagem. Voltará à leitura de noite. Analisando os pesadelos, percebe o valor simbólico da Morte e do Tempo. Tão simples: aperto no peito + vovô = Morte. Tempo estendido + pressão dos prazos = Tempo dos relógios. Reforça a suspeita de que a nominalização das coisas, se não resolve problemas, nos dá a impressão de dominá-los. Gostaria de estar em Melk conversando com William de Baskerville sobre o nome da rosa. À noite, sonha com Sean Connery. 

A semana corre, já é quinta, e a dívida de escrita permanece. Duas dívidas, aliás. O sangue alemão povoa a cabeça com ideias funestas. Antes que perca a paciência com a falta de foco, corta os pensamentos automáticos e concentra-se nas atividades da Residência: só voltará a pensar nas tarefas de escrita no fim de semana. À noite, confirma o almoço na mãe, usual nas sextas.

Nada se compara às comidinhas da mãe. “Com uma taça de vinho, melhor ainda, filha”. Ziza agradeceGostaria de ficar, recostada no colo materno, a fazer confidências sabendo que nada a surpreende – tudo já foi intuído. Mas Alter lembra que passa da hora de encarar a escrita. 

Chega cedo em casa. Relê as anotações, analisa os exemplos. Tudo mais claro: tempo estendido tem a ver com tempo da personagem. Agora falta uma ideia para o conto. Talvez um café ajude. 

Quando retorna da cozinha, observa as fotos no mural sobre a mesa do computador. Os pais, o avô. E mais Rô e ela de uniforme e mochila do Pré; Rô e ela numa festa da oitava série; Rô e ela abraçadas na beira da praia, no último verão. Ocorre-lhe uma frase de Teolinda Gersão: “agrada-me o rasgão no mundo conhecido para surpreender além dele uma perspectiva improvável”. Seus olhos buscam na estante o livro da Cíntia que tem evitado abrir, Duas iguais. Lê as primeiras e as últimas páginas. No mural, uma lágrima umedece os olhos da mãe, o pai sorri sem jeito: vai, Ziza, já é tempo, o teu tempo. 

O conto com tempo estendido surge inteiro. Ela deixa fluir, escreve, lê, relê. Ansiedade e alívio, nada a ver com a aula. Ainda não é sábado, mas decide adiantar o prazer, toma um cálice do prosecco preferido das duas. Cai lá fora uma chuva ritmada, perfeita, na noite quase perfeita.

Ainda chove ao amanhecer do sábado. Tanto melhor. Não tem plantão no ambulatório, pode dedicar-se às palavras. Prepara um café completo, degusta-o em tempo estendido. Pensa em ligar para Rosana, não, é melhor aguardar a noite.

Volta ao conto, poucos ajustes, mas nevrálgicos: não se trata de uma narrativa qualquer. Muita delicadeza ao tratar da questão essencial da personagem e do conflito dela decorrente. O dia flui como tem de ser: mexe, avalia, remexe, faz pausas para o conto descansar. Está escuro lá fora quando Zilá dá por encerrado o texto. Degusta seu prosecco com bruscchetas de pasta de salmão. Acordados todos os sentidos, nem cogita adormecer, quer mergulhar na antecipação, agora à flor da pele, do que está por vir. Alter aproveita o momento: estão faltando os sete dias na vida do personagem. Atravessa em vigília a madrugada, só volta a dormir de manhãzinha, já sabendo o que fazer. 

Domingo. Dia D, desembarque, descoberta. Hoje à noite, com Rô, quem sabe o que vai rolar. Começa a digitar: 

“A aula terminou mais cedo para Ziza, naquela segunda”. 

A aula terminou mais cedo para Zilá, naquela segunda. Eram 19 horas quando sentiu uma opressão no peito, um mal-estar difuso. Melhor ir pra casa. Desculpem, vou ter de sair mais cedo hoje. Rosana, mais que amiga, se ofereceu: me dá uma carona? O percurso foi silencioso. Zilá estava melhor ao chegar em frente à casa da Rô. 

– Te cuida, Ziza – Rô sorriu ao falar – estou sacando que tu não tá legal, mas não quer falar sobre isso. Amanhã ligo para saber de ti, ok? 

Zilá fez sinal de positivo com a mão: as duas se entendiam sem falar. Só queria chegar em casa. Um banho demorado, uma sopinha quente – e ela estaria novinha.

Meteu-se na cama aquecida. Lençol térmico, invenção dos deuses. O sono não vem, um pico de ansiedade sim. Acha que tudo se relaciona com a aula, justo o melhor momento da semana. Estranha contradição. Daí a pensar em outras estranhezas é um pulo. Ela é o próprio exemplo de paradoxo, a começar pelo nome. Zilá, antiquado para seus 22 anos – anacronia superada com o apelido que a Rô inventou ainda na escola – Ziza. 

Zilá nasceu no Brasíl, filha de pai alemão e diplomata e de mãe caboverdiana e poeta. Tão distantes em origem e atividade, os pais sempre a orgulharam por ousarem ser um só sendo tão diferentes. Bom para ela, disse-lhe um dia Rô, podia usufruir do melhor dois: determinação de um lado, delicadeza de outro. Nem sempre eu consigo, ouviu-se dizendo à mais-que-amiga, mas não era hora de pensar nisso. Precisava dormir. 

Mas e o sono? Refez seus passos: tinha chegado na aula cansada, com frio e com fome. Não entendeu bem o conteúdo, frustração. “Tu és uma neurótica, Zilá, não estás na aula para aprender?” – assoprou o alter ego. “Alter, não vem me dizer que entendeste o tal tempo estendido, que serias capaz de usar isso em um texto. E a tarefa “sete dias na vida de uma personagem”, como vais fazer?” 

Alter, impiedoso, silencia. O caso se resolve com um Rivotril.

Tem uma noite agitada. Cenas com o avô mais querido, morto por enfarte, alternam-se com imagens e sons de relógios – ampulhetas, cucos, carrilhões. Desperta aflita. Corta a tentação de analisar os sonhos: não tem tempo para Dr. Freud no momento. Trataria deles na quarta, com a psi. 

O celular toca, é Rô querendo notícias. Quem sabe podiam jantar no domingo, conversar sobre o tempo estendido e a tarefa dos sete dias? Ok. 

Chega ao hospital animada. Entre um round e outro, o dia passa rápido. Bom sinal, está mesmo melhor. Já em casa, acomoda-se na cama para ler, adormece de mansinho. Leitura interrompida, o livro do mestre Assis, recomendado pela professora na segunda, resta aberto sobre o edredom. 

Antes de o celular despertar, já tinha retomado a leitura. Conceitos e exemplos sobre o tempo na narrativa claros, sente-se mais segura para não escrever bobagem. Voltará à leitura de noite. Analisando os pesadelos, percebe o valor simbólico da Morte e do Tempo. Tão simples: aperto no peito + vovô = Morte. Tempo estendido + pressão dos prazos = Tempo dos relógios. Reforça a suspeita de que a nominalização das coisas, se não resolve problemas, nos dá a impressão de dominá-los. Gostaria de estar em Melk conversando com William de Baskerville sobre o nome da rosa. À noite, sonha com Sean Connery. 

A semana corre, já é quinta, e a dívida de escrita permanece. Duas dívidas, aliás. O sangue alemão povoa a cabeça com ideias funestas. Antes que perca a paciência com a falta de foco, corta os pensamentos automáticos e concentra-se nas atividades da Residência: só voltará a pensar nas tarefas de escrita no fim de semana. À noite, confirma o almoço na mãe, usual nas sextas.

Nada se compara às comidinhas da mãe. “Com uma taça de vinho, melhor ainda, filha”. Ziza agradeceGostaria de ficar, recostada no colo materno, a fazer confidências sabendo que nada a surpreende – tudo já foi intuído. Mas Alter lembra que passa da hora de encarar a escrita. 

Chega cedo em casa. Relê as anotações, analisa os exemplos. Tudo mais claro: tempo estendido tem a ver com tempo da personagem. Agora falta uma ideia para o conto. Talvez um café ajude. 

Quando retorna da cozinha, observa as fotos no mural sobre a mesa do computador. Os pais, o avô. E mais Rô e ela de uniforme e mochila do Pré; Rô e ela numa festa da oitava série; Rô e ela abraçadas na beira da praia, no último verão. Ocorre-lhe uma frase de Teolinda Gersão: “agrada-me o rasgão no mundo conhecido para surpreender além dele uma perspectiva improvável”. Seus olhos buscam na estante o livro da Cíntia que tem evitado abrir, Duas iguais. Lê as primeiras e as últimas páginas. No mural, uma lágrima umedece os olhos da mãe, o pai sorri sem jeito: vai, Ziza, já é tempo, o teu tempo. 

O conto com tempo estendido surge inteiro. Ela deixa fluir, escreve, lê, relê. Ansiedade e alívio, nada a ver com a aula. Ainda não é sábado, mas decide adiantar o prazer, toma um cálice do prosecco preferido das duas. Cai lá fora uma chuva ritmada, perfeita, na noite quase perfeita.

Ainda chove ao amanhecer do sábado. Tanto melhor. Não tem plantão no ambulatório, pode dedicar-se às palavras. Prepara um café completo, degusta-o em tempo estendido. Pensa em ligar para Rosana, não, é melhor aguardar a noite.

Volta ao conto, poucos ajustes, mas nevrálgicos: não se trata de uma narrativa qualquer. Muita delicadeza ao tratar da questão essencial da personagem e do conflito dela decorrente. O dia flui como tem de ser: mexe, avalia, remexe, faz pausas para o conto descansar. Está escuro lá fora quando Zilá dá por encerrado o texto. Degusta seu prosecco com bruscchetas de pasta de salmão. Acordados todos os sentidos, nem cogita adormecer, quer mergulhar na antecipação, agora à flor da pele, do que está por vir. Alter aproveita o momento: estão faltando os sete dias na vida do personagem. Atravessa em vigília a madrugada, só volta a dormir de manhãzinha, já sabendo o que fazer. 

Domingo. Dia D, desembarque, descoberta. Hoje à noite, com Rô, quem sabe o que vai rolar. Começa a digitar: 

“A aula terminou mais cedo para Ziza, naquela segunda”. 

E os sete dias fluem com a leveza do já conhecido. 

A lata

A lata - Anna Maria Mello

Uma lata poderia ser muitas coisas. Nas primeiras semanas que cheguei a Porto Alegre, os dias eram iluminados. O sol parecia entrar pela cabeça, descendo pelo corpo, passando por todos os órgãos até chegar em cada célula. A bola alaranjada que sumia no Guaíba nos finais de tarde me aquecia. Era tudo novidade e isso me bastava. Faltava um lugar para me instalar. Na busca pela internet, encontrei um apartamento de frente para o rio. Depois de arrastar a mala pelos degraus de uma estreita escada, me jogar na cama com o corpo grudento, roupas molhadas de suor, abri a geladeira e constatei que precisava ir ao supermercado. Dentre as ofertas da prateleira abarrotada de mercadorias, decidi por um bom vinho, uma caixa de massa e duas latas de molho de tomate. Comi, lambendo os dedos. O que sobrou, guardei para o dia seguinte.

Durante a madrugada, acordei com ruídos vindos de uma avenida próxima. Breques de ônibus que precisavam de pastilhas novas, pessoas que gritavam saindo de uma balada, pelotão de exército comandado por toques de apito. Sem conseguir pregar o olho nas noites seguintes, bastaram alguns dias para que me mudasse. De lá, levei as roupas e uma lata de molho de tomate.

Na nova moradia, longe do Guaíba, o sol descia em meio aos prédios. Nas manhãs, ouvia o cantar de pássaros. O apartamento tinha móveis mais confortáveis, escolhidos a dedo pela proprietária. Mas nada tinha minha cara.

As noites eram mais difíceis. Pensava nas coisas que havia deixado para trás, em São Paulo. As filhas, os cachorros, os amigos. Deitada de barriga para cima, demorava a pegar no sono.  

Em algumas madrugadas, acordava molhada, com os olhos fixos na parede bege. Não reconhecia nenhum objeto. Por alguns minutos, não sabia onde estava.

Os dias da semana eram preenchidos por estudos e trabalho, livros que me levavam a lugares longínquos e, por vezes, inóspitos.

Em uma sexta-feira de maio, quando recebi a visita de minha filha, o sol já não brilhava tão forte, e as nuvens se agitavam formando tempestades. Júlia chegou animada para desbravar os pampas. Assim que entrou, foi logo dizendo:

– Nem parece sua casa, aqui combina mais comigo.

Ela tinha razão, mas não havia me dado conta. Estava na hora do almoço e resolvi fazer a macarronada, aquela tradicional da “mama”. Sabia que, assim, ela se sentiria em casa. De barriga cheia, nos atiramos na cama e juntas, tiramos um cochilo. Ao acordar, do quarto, entre as frestas de madeira que dividiam o único ambiente, pude ver a sombra de Julia na cozinha. Estava com algo nas mãos. 

– Mãe, vem cá. Que tal pintarmos essa lata?

Era uma boa ideia, faríamos algo juntas. Nessa hora, a panela já estava com água fervente. Mergulhei a lata. Encostei de relance a mão na tampa da panela. Senti arder. Olhei o mindinho; estava vermelho, mas não disse nada a Julia. 

Saímos para comprar tinta e outros apetrechos. No caminho, Julia contou de seu novo emprego na empresa de cosméticos, na área de Marketing. Estava animada, e eu feliz por vê-la tão bem.

De volta ao apartamento, começamos a pintar a lata. Meus dedos melecados de verde cobriam a bolha do mindinho. O cheiro de tinta tomou conta da sala. Abrimos as janelas e resolvemos sair para comer. No caminho, passamos por uma loja de artesanato. Julia olhou para um guardanapo estampado com cactos.

– Vai combinar com a lata.

– Sim, vai cobrir as imperfeiçoes da tinta. Vamos levá-lo.

Pegamos o pacote de guardanapos, um verniz, e voltamos  para casa. Dessa vez, foi Júlia que quis aplicá-lo. Observei como deslizava os dedos sobre as nervuras, seus dedos preenchendo os espaços vazios. Deixou em cima da pia para secar. Voltou depois de um tempo para reaplicar outra camada, enquanto eu ajudava com as malas. Era hora de sua partida. 

Durante a noite, o cheiro não incomodou. Mesmo assim, abri a janela para circular o ar. No celular, mensagem de Julia, dizendo ter chegado bem. Encostei no travesseiro e dormi.

No dia seguinte, a lata já estava seca. Posicionei-a na escrivaninha ao lado de uma pilha de livros. Peguei o lápis com o qual estava escrevendo e coloquei dentro. Admirei-a por alguns segundos. Como havia sido bom o final de semana.

O semestre passou rápido. Ganhei outros lápis, borrachas e canetas. 

Resolvi fazer uma macarronada. Dessa vez, seria para os amigos. Arrumei a casa. Em cima da escrivaninha, bem do lado das pilhas de livros, ajeitei a lata.

Texto produzido na Oficina de Escrita de Não-Ficção do Prof. Dr. Fred Linardi

Por Anna Maria Mello

A onda

A onda - Anna Maria Mello

Com os olhos fixos no mar, estava sentada de pernas esparramadas e pés enterrados na areia. Entre as mãos, um pequeno balde plástico furta-cor. No pescoço, um reluzente crucifixo, presente de sua mãe na primeira eucaristia. Havia completado 11 anos e sabia falar na internet sem gaguejar. Tinha ideias de adulto. 

Se levantou. Chacoalhou os pés, jogou o pequeno balde no chão e foi em direção à mãe.

– Natalia, quero fazer uma tattoo
– Quer o quê?
– Fazer uma tattoo – repetiu revirando os olhos.
– Isso é coisa do demônio.

 Estava de boca aberta. Resolveu ganhar tempo.

– O que você quer tatuar? 
– Uma onda.
– Se você fizer, vai doer.

Carol estava decidida. Bateu o pé no chão e com o dedo apontou o local.

– As crianças de hoje querem cada coisa – disse a mãe em voz alta. Não sabia nem o que era tatuagem. Pegava jacaré nas ondas com uma prancha de isopor.
– Você sabia que tatuagem dói?
– Dói nada.

Natália desistiu, pegou seu livro na cadeira ao lado. Mergulhou nas páginas afastou-se da filha.

Carol deu as costas para mãe e foi em direção ao mar. Colocou os pés na água que batia em seu tornozelo. Andou alguns metros. A água respingou em sua barriga e peito. Veio uma onda que a tragou.

Quando Carol acordou, estava na areia, nos braços de Pedro, o vizinho da casa da frente. A seu lado, uma prancha escrita “New Wave”.

A mãe respirava ofegante. 

 – Que susto. Falei que não era para ir no fundo.

Carol tinha os olhos em Pedro. Não havia percebido o quanto ele era musculoso.  Ele perguntou se ela estava melhor, se podia levá-la para casa. Ela balançou a cabeça de modo afirmativo.

À noite, já na cama com sua mãe, voltou a pensar na tatuagem. Agora faria duas. Olhou para seu braço esquerdo, imaginando como ficaria o nome de Pedro tatuado ali. 

Texto produzido na Oficina de Escrita Criativa do Prof. Dr. Antônio de Assis Brasil

Por Anna Maria Mello